Posts tagged: pseudomedicina

Pode a homeopatia ficar ainda mais ridícula?

Vamos primeiro lembrar rapidamente dos princípios fundamentais da homeopatia. O primeiro princípio é “para curar um sintoma, administre a mesma substância que causa esse sintoma”.

O segundo princípio é “não faça isso”.

Pois os preparados (remédio my ass) homeopáticos são diluídos tantas vezes que não resta nada da substância original. São apenas água ou o que quer que tenha sido usado como solvente. (Eu roubei essa piada do James Randi, mas a explicação é essa mesmo. Tem também mais detalhes aqui.)

Com base nisso (e outros absurdos como “quanto mais diluído, mais potente o preparado”), é difícil imaginar algo mais ridículo que isso.

Quem dera isso fosse verdade.

E se um preparado (que na verdade é só água) fosse feito a partir de algo que nem existe? Não, nem mesmo os homeopatas seriam capazes de tamanha idiotice, certo?

Errado.

O Oscillococcinum é um preparado homeopático para gripe. No início do século passado, o homepata francês Joseph Roy viu, em praticamente tudo que examinava com seu microscópio (sangue de vítimas com gripe, herpes, varicela, câncer, etc.), o que ele identificou como uma bactéria e chamou de oscillococcus. Segundo ele, além das já citadas essa “bactéria” também era responsável por coisas como eczema, reumatismo e tuberculose. O tal oscillococcus também foi visto no fígado e coração de uma espécie de pato (e esses são usados como base para produzir o Oscillococcinum hoje).

O problema é que o que quer que Roy tenha visto, não existe de verdade. Hoje sabemos que a gripe é causado por um vírus, que é pequeno demais para ser visto num microscópio ótico, reumatismo não é causado por micróbios, etc. Outras pessoas procuraram e não viram a suposta bactéria, mesmo com equipamentos melhores.

A explicação mais provável é que Roy estava vendo algum artefato do equipamento como bolhas de ar.

Então basicamente temos um preparado feito com base em algo que não existe, e essa substância não existente é diluída até que não exista mais nenhuma molécula dessa substância não existente no resultado.

Mas espere, há ainda mais.

O método “normal” de preparar uma solução homeopática é misturar uma parte da substância base (que, como vimos, nem precisa existir de verdade) em 99 partes de água e chacoalhar. Isso é uma solução 1C. Depois mistura-se 1 parte da solução 1C em 99 de água, para obter uma solução 2C, e assim sucessivamente.

O Oscillococcinum é uma solução 200CK. O “K” indica que é usado o “método korsakoviano”. Como dá muito trabalho ficar repetindo o processo de medição 200 vezes, sem falar que 200 recipientes são necessários, esse método simplifica as coisas: a cada iteração, o conteúdo do frasco é descartado e ele é enchido de água novamente, pois o russo estimou (sabe-se lá como) que sobra mais ou menos 1% do conteúdo original.

Eles nem se dão mais ao trabalho de tentar. Se isso não é uma fraude deliberada, não sei o que é.

(Outra) carta à Gazeta do Povo

(E sobre o mesmo assunto.)

Tão logo saiu a notícia sobre o parlamento briânico e a homeopatia, foi publicada uma reportagem sobre o assunto no jornal Gazeta do Povo. Desta vez a reportagem não estava ruim, ela comentou sobre o estudo feito pela comissão do parlamento e depois comentou que (como era de se esperar) os defensores da prática contestaram tal estudo, embora sem oferecer algo para suportar tal posição.

A título de “interatividade”, a reportagem pediu aos leitores que emitissem opiniões. Alguns fizeram, ao longo dos dias subsequentes algumas cartas foram publicadas. Eu também decidi então mandar a minha, que reproduzo abaixo:

Desde o pedido de comentários de leitores a respeito da homeopatia, suscitado pela notícia de que parlamentares britânicos propuseram que o sistema público de saúde não mais pague por “tratamentos” homeopáticos que não funcionam, uma série de cartas foram publicadas neste espaço defendendo a prática.

A maioria delas segue o mesmo padrão: “Eu sofria de <insira uma doença aqui>. Não conseguia ser curado até que fui a um homeopata. Depois disso, fiquei completamente curado.” Às vezes temos elementos que tornam a situação quase boa demais para ser verdade como “depois de uma única dose” ou “em poucos dias”.

Não é meu objetivo desmerecer a experiência de ninguém, mas esses relatos pessoais não têm valor na hora de avaliar se a homeopatia funciona ou não. Embora a situação indique que a homeopatia foi responsável pela cura, há uma série de outras variáveis envolvidas que podem ter influenciado o resultado final. É raro, mas às vezes doenças desaparecem sozinhas, ou a pessoa pode ter mudado algum hábito que fez com que as crises não fossem mais deflagradas, ou pode ter havido uma mudança na dieta que também influenciou o comportamento da doença, etc.

Para confirmar ou não a eficiência de um tratamento, é preciso fazer um estudo que se preocupe ao máximo em eliminar essas variáveis para que a única variável seja o uso do tratamento ou não. Em estudos desse tipo, verificou-se que não houve diferença entre um “remédio” homeopático e um placebo.

Também foi mencionado que “a homeopatia funciona em animais” e que “animais são imunes ao efeito placebo”, logo a homeopatia tem que funcionar. Essa é outra noção errada que vem sendo usada há muito tempo por defensores desta prática. Em primeiro lugar, também aqui são necessários estudos controlados. Simplesmente dizer que “meu cão foi tratado com homeopatia e ficou curado” não tem valor pelos mesmos motivos explicados acima. Em segundo lugar, é difícil medir avaliar objetivamente como os animais estão se sentido — talvez a melhora não seja tão grande, mas o dono ou o veterinário percebam, involuntariamente, uma suposta melhora maior do que a real melhora sofrida pelo animal. E em terceiro lugar, como Pavlov demonstrou, animais podem ser condicionados. E o condicionamento é um dos elementos do efeito placebo.

Para mais sobre estudos a respeito da homeopatia, vejam os posts anteriores. Sobre o problema com relatos pessoais, recomendo este vídeo. E eis alguns links sobre homeopatia e efeito placebo em animais.

Esta carta não foi publicada.

Inglaterra: The bad

Mas nem tudo são boas notícias na Inglaterra. O escritor britânico Simon Singh, autor de livros como “O Último Teorema”, “O Livro dos Códigos” e “Big Bang”, está sendo processado pela Associação Quiroprática Britânica.

Além dos livros acima, Singh escreveu (junto com Edzard Ernst) “Trick or Treatment” (ainda não traduzido no Brasil), um livro que mostra que não há evidências de que pseudomedicinas como acupuntura, homeopatia e quiropraxia funcionem. O livro mostra, pelo contrário, que os testes feitos com tais práticas indicam que elas não são mais eficientes que um placebo. Não li esse livro ainda, mas se for tão bom quanto “O Último Teorema” e “O Livro dos Códigos”, deve ser imperdível.

Mas a causa do processo na realidade é um artigo relacionado publicado no jornal The Guardian que contém a seguinte afirmação:

You might think that modern chiropractors restrict themselves to treating back problems, but in fact they still possess some quite wacky ideas. The fundamentalists argue that they can cure anything. [...] The British Chiropractic Association claims that their members can help treat children with colic, sleeping and feeding problems, frequent ear infections, asthma and prolonged crying, even though there is not a jot of evidence. This organisation is the respectable face of the chiropractic profession and yet it happily promotes bogus treatments.

Por causa desse artigo (e em especial da última frase do trecho sitado), a Associação Quiroprática Britânica (BCA, na sigla original) está processando Singh por libel, que seria algo como a nossa “difamação”.

E é aí que o problema começa. Na Inglaterra, em casos como esse, o acusado tem que provar que suas afirmações são verdadeiras, ao invés do que seria esperado, que o acusador que seria o responsável por provar que a afirmação é falsa e que o acusado deliberadamente mentiu e causou dano.

A situação se complicou ainda mais quando o juiz da audiência preliminar, Sir David Eady, decidiu que o artigo apresentava um fato (e não apenas um comentário ou opinião, apesar da natureza obviamente editorial do artigo), e ainda que ao usar o termo “bogus” Singh quis dizer que a BCA deliberada e conscientemente oferece tratamentos falsos. Isso torna a defesa particularmente difícil, já que ele não tem como provar que isso é verdade, em particular pois ele nunca quis dizer isso, como confirma o parágrafo seguinte do artigo:

I can confidently label these treatments as bogus because I have co-authored a book about alternative medicine with the world’s first professor of complementary medicine, Edzard Ernst. He learned chiropractic techniques himself and used them as a doctor. This is when he began to see the need for some critical evaluation. Among other projects, he examined the evidence from 70 trials exploring the benefits of chiropractic therapy in conditions unrelated to the back. He found no evidence to suggest that chiropractors could treat any such conditions.

Para mais detalhes sobre o caso, vejam este post.

Apesar das perspectivas não muito boas depois daquela audiência, Singh decidiu arriscar e apelar da decisão (ao invés de fazer um acordo). No dia 23 de fevereiro houve uma nova audiência na corte de apelações. Segundo alguns relatos, as coisas aparentemente andaram bem e os juízes não ficaram muito impressionados com os argumentos da BCA. Mas só saberemos com certeza como o caso vai continuar quando sair a decisão dos juízes.

Inglaterra: The good

A notícia não é nova, mas merece ser registrada aqui mesmo assim: parlamentares britânicos sugerem que o sistema de saúde público pare de oferecer tratamentos homeopáticos.

Uma comissão do parlamento analisou os estudos feitos sobre a homeopatia e chegou à única conclusão lógica possível (a não ser que você acredite em mágica, claro): que os “remédios” homeopáticos não são mais eficientes que um placebo. Em função disso, recomendam que o sistema de saúde britânico não mais custeie “tratamentos” homeopáticos, gastando ao invés disso o dinheiro em terapias baseadas em ciência.

Não é uma lei; não sei se é sequer um projeto de lei. Mas já é um avanço, além de ser útil por trazer o assunto à tona — e não só com a propaganda típica dos homeopatas, mas mostrando a visão científica da coisa.

Precisávamos de algo assim aqui no Brasil também, já que o SUS vergonhosamente admite práticas como acupuntura e homeopatia.

Não venda água mágica a dragões

Tem um programa em vários países que parece ser uma mistura de O Aprendiz com Ídolos: aspirantes a empresários vão tentar vender seus produtos ou serviços a empresários na esperança de conseguir o capital necessário.

Num programa do Canda, um senhor foi tentar conseguir capital para sua água especial cura de conjuntivite a câncer, e o resultado é o vídeo abaixo:

Digamos que ele não obteve muito sucesso, nem saiu muito feliz do programa.

Via Bad Astronomy.

Carta à Gazeta do Povo

Mandei a carta a seguir para o jornal Gazeta do Povo, que hoje publicou uma reportagem afirmando que a procura por “medicina” alternativa (que na verdade de medicina não tem nada) deveria ser maior:

Segundo a reportagem publicada no jornal, os números da procura por “medicina alternativa” (que eu pessoalmente prefiro chamar de “pseudomedicina”) deveriam ser maiores. Pelo contrário, esses números estão altos demais; o ideal seria se não tivéssemos nenhuma consulta “alternativa” e as pessoas fossem tratadas com terapias que efetivamente funcionam.

É lamentável que o SUS gaste o dinheiro dos contribuintes financiando práticas alternativas como as citadas homeopatia e acupuntura, que só são suportadas por relatos anedotais e “estudos” de qualidade duvidosa, que usam amostras muito pequenas, que avaliam os benefícios de maneira subjetiva e outros problemas. E, por outro lado, quando são feitos estudos com o rigor necessário, a conclusão é que essas práticas não tem efeito melhor do que um placebo. Embora as práticas muitas vezes não tragam riscos diretos aos pacientes (mesmo porque não têm efeito), elas são perigosas caso alguém troque a medicina baseada em ciência por tais “terapias” e deixe de receber o tratamento necessário.

Também é lamentável que a Gazeta do Povo tenha feito uma reportagem incentivando a procura por tais práticas sem ouvir uma opinião contrária a elas, quando na realidade deveria ter feito uma reportagem alertando sobre os perigos no uso de tais práticas e incentivando a procura por métodos de tratamento com eficácia comprovada.

O endereço para contato é leitor@gazetadopovo.com.br.

Por motivos óbvios não pude me estender nos detalhes, mas além do que já escrevi sobre o assunto, recomendo os sites Quackwatch, Science-based Medicine e Neurologica.

Bióloga que promovia curas alternativas para o câncer morre… de câncer

A dra. Hulda Clark, que afirmava que o câncer (e outras doenças) eram causados por parasitas e que a a cura seria tão simples quanto uma mudança na dieta e uma limpeza do fígado (vejam o link para detalhes), morreu dia 3 de setembro de mieloma múltiplo, um tipo de câncer do sangue.

A notícia e a causa são confirmadas no site dela.

[Essa informação veio, mais uma vez, do Geologic Podcast.]

Palavras diluídas

Se uma imagem vale mais que mil palavras, então um vídeo deve valer mais que 1.000.000 palavras. Ou, segundo os princípios da homeopatia, um vídeo seria uma palavra altamente diluída:

É pena que esteja em inglês, mas mesmo não entendendo muito do que ele fala deve ser possível pegar a ideia do que ele está fazendo.

Só faltou uma legenda “This is what homeopaths actually believe” à la South Park.

Antigos remédios e a homeopatia

Um dos leitores desse site me mandou por e-mail uma lista de antigos remédios que causam espanto hoje em dia. A maioria são produtos feitos com cocaína, heroína e similares. (A lista também circula pelos blogs da internet, por exemplo aqui.)

Não consegui achar muitas informações sobre os produtos específicos, mas é bastante plausível que eles (ou outros parecidos) tenham existido. A cocaína era considerada um medicamento, e originalmente a Coca-Cola (feita de folhas de coca, daí o nome) continha uma pequena quantidade da droga.

Por outro lado, os “remédios” homeopáticos são basicamente os mesmos desde que foram inventados em 1796. E não digo isso pois “remédios” homeopáticos são e sempre foram apenas água, mas porque, mesmo segundo os conceitos loucos dos homeopatas, eles não mudaram desde que foram inventados. São feitos do mesmo jeito, e com as mesmas substâncias. Alguns novos componentes devem ter sido adicionadas ao repertório, mas não se fala de substâncias que na verdade podiam ser perigosas e foram descontinuadas, ou que não eram tão eficientes e foram substituídas por outras melhores, ou melhorias no processo de fabricação, etc. Basicamente a homeopatia nada mudou em 200 anos.

Por que isso? Por que homeopatia não é ciência. A ciência é um processo, e não um conjunto de ideias. Ela é falível e mutável, e está em constante desenvolvimento e evolução. Às vezes descobre-se que substâncias podem ser perigosas, que os riscos não compensam os benefícios (como aconteceu com a talidomida e a cocaína), ou novos remédios ou procedimentos são descobertos que se mostram melhores que os anteriores, e estes são naturalmente substituídos pelos mais novos. Ao contrário do que ocorre com as pseudomedicinas, imutáveis e estagnadas.

Algo que é imutável, não evolui, mantém-se sempre igual às tradições, não é necessariamente algo pseudocientífico. Mas ao nos depararmos com esta característica devemos elevar o nosso nível de alerta, e se combinada com outros comportamentos típicos das afirmações pseudocientíficas, então provavelmente estamos lidando com alguma bobagem sem nenhum fundamento. “Se ele parece com um pato, nada como um pato e grasna como um pato, então provavelmente é um pato.”

World Health Organization acerta com relação à homeopatia

Depois da vergonhosa (e perigosa) atuação das autoridades sanitárias brasileiras (tanto o Conselho Regional de Medicina quanto o Ministério da Saúde reconhecem a homeopatia como um tratamento válido), finalmente alguma organização relacionada à saúde acertou ao dizer que a homeopatia não é uma cura ou tratamento.

Trata-se da World Health Organization (WHO), que é a autoridade diretora e coordenadora para saúde da ONU. Como relata a BBC, foi emitido um comunicado claro e inequívoco que condena o uso da homeopatia como tratamento para tuberculose, diarreia, malária e outras condições:

Dr Mario Raviglione, director of the Stop TB department at the WHO, said: “Our evidence-based WHO TB treatment/management guidelines, as well as the International Standards of Tuberculosis Care do not recommend use of homeopathy.”

The doctors had also complained that homeopathy was being promoted as a treatment for diarrhoea in children.

But a spokesman for the WHO department of child and adolescent health and development said: “We have found no evidence to date that homeopathy would bring any benefit.

“Homeopathy does not focus on the treatment and prevention of dehydration – in total contradiction with the scientific basis and our recommendations for the management of diarrhoea.”

Dr Nick Beeching, a specialist in infectious diseases at the Royal Liverpool University Hospital, said: “Infections such as malaria, HIV and tuberculosis all have a high mortality rate but can usually be controlled or cured by a variety of proven treatments, for which there is ample experience and scientific trial data.

“There is no objective evidence that homeopathy has any effect on these infections, and I think it is irresponsible for a healthcare worker to promote the use of homeopathy in place of proven treatment for any life-threatening illness.”

Via Depleted Cranium.

WordPress Themes