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Lavar as mãos é coisa do passado: Prevenções bizarras (e ineficazes) para a gripe suína

É fácil rir de ideias absurdas para combater a gripe suína quando elas estão longe. Como os rabinos que sobrevoaram Israel cantando e soprando trombetas para impedir que o vírus se espalhe (!!!). Veja o vídeo para rir, mas leia também alguns comentários sérios.

Mas, de repente, as coisas não são mais tão engraçadas quando acontecem aqui. Como é o caso de uma infeliz reportagem do Jornal Nacional exibida dia 20 de agosto.

Em resumo, a Secretaria Municipal de Saúde de Campo Grande pretende evitar a gripe com água. Mas não uma água qualquer, água rotulada “remédio homeopático”, pois assim ela obtém poderes sobrenaturais. Abaixo a reportagem completa e comentários meus.

O debate sobre a melhor forma de se proteger contra a gripe suína ganhou mais uma polêmica. De Campo Grande, a repórter Cláudia Gaigher mostra que o motivo foi uma decisão da Secretaria Municipal de Saúde.

Não vou negar que seja um tanto quanto polêmico, mas não deveria ser. Polêmico é algo que gera alguma discussão, mas no caso de homeopatia, já foi confirmado que ela não funciona. O que não é de surpreender, visto que os “remédios homeopáticos” são apenas água. Então não é uma questão de discussão, é algo que não funciona e que não devia sequer ser considerado.

O medicamento já usado na prevenção da gripe comum.

Já que foi usado, poderiam ter falado algo sobre os resultados – se é que fizeram um estudo rigoroso dos resultados, ao invés de se basear em coisas subjetivas como depoimentos de pacientes que dizem que se sentiram melhores alguns dias depois de tomar o “remédio”. Mas duvido que tenham feito tal análise.

“Ele é feito a partir do próprio vírus influenza, não especificamente deste vírus influenza que está aqui agora. Mas de várias cepas. Ele foi diluído e dinamizado 200 vezes. O que significa que neste medicamento já não existe nem uma partícula do vírus”, disse a farmacêutica Ana Paula Zandavalli.

Essa é a única parte da reportagem que presta para alguma coisa. A descrição é correta, mas muito breve. Para que não sabe como a homeopatia é feita, isso não ajuda muito a perceber que os métodos usados simplesmente não fazem sentido. Além disso, o local onde foi apresentado o lado científico na reportagem não ajuda, visto que logo em seguida autoridades falam das supostas virtudes desse “medicamento” que não contém nenhuma partícula do vírus.

Um médico homeopata explica como o remédio pode agir no organismo. “A gente espera que as pessoas que vão desenvolver, desenvolvam os sintomas mais leves e que diminuam os índices de complicações”, disse o médico homeopata Luiz Darcy Siqueira.

Não, o “médico” homeopata não explica como o remédio pode agir no organismo. Ele explica o que se deseja que o “remédio” faça, mas uma explicação de como o remédio age seria algo muito mais técnico, como essa descrição do mecanismo de ação da Aspirina. Mas, como em outras pseudociências, os defensores da homeopatia não são capazes de propor um modelo plausível de funcionamento, e usam no máximo de termos vagos como “memória da água” ou “lei dos semelhantes”.

A prefeitura vai distribuir 400 mil doses em postos de saúde e escolas municipais em Campo Grande. Segundo as autoridades de saúde, essa é mais uma medida preventiva para fortalecer o sistema imunológico da população, não é a cura da gripe A.

“Não se trata de vacina. É uma prevenção homeopática, mais um cuidado do nosso município prevenindo a infecção em muitas pessoas”, explicou Rita de Cássia Lourenço, da Sociedade de Homeopatia (MS).

Que vergonha!, prefeitura. Mesmo com o reconhecimento de que é só algo para “fortalecer o sistema imunológico”, ainda assim é uma medida ineficaz que traz falsas esperanças.

O Conselho Regional de Medicina não vê problemas na medida. “Não faz parte do manejo clínico da vigilância epidemiológica da influenza, do H1N1, mas se for orientação da homeopatia, que é uma especialidade reconhecida pelo Conselho Federal de Medicina, acreditamos que estejam fazendo nas melhores das intenções no sentido profilático”, disse Antônio Carlos Bilo, do Conselho Regional de Medicina (MS).

Que vergonha!, CRM. O Conselho deveria sim ver problemas na medida, visto que se trata de um tratamento ineficaz (ver links acima). E é ainda mais lastimável que a homeopatia seja uma especialidade reconhecida. Eu esperava que o órgão regulador da atividade médica no Brasil fizesse um trabalho mais sério de separar o joio do trigo com relação a tratamentos que funcionam e tratamentos que são apenas enganação.

Quanto a eles estarem oferecendo a “prevenção homeopática” na melhor das intenções, disso eu não tenho dúvidas. Mas precisamos algo mais do que boas intenções, como tratamento e prevenção de verdade. Seria bom se pudéssemos curar (ou prevenir) câncer, AIDS, tuberculose, etc., com “boas intenções”, mas infelizmente essa não é a realidade.

Os infectologistas são mais cautelosos. “A gente tenta trabalhar em cima de literatura científica, as coisas que comprovadamente são eficazes, que já têm estudos em cima disso. E eu como infectologista desconheço essa questão de estudo, eficácia”, disse a infectologista Andrea Lindemberg.

Não me surpreende que desconheça, visto que ela não existe. Existem sim alguns estudos que supostamente comprovaram a eficácia da homeopatia, mas eles não resistem a uma análise rigorosa: as amostras são pequenas, não foi usado o método duplo-cego corretamente, a avaliação dos efeitos é feita subjetivamente, etc.

Fiquei decepcionado com a posição “morna” da infectologista. Mas talvez não seja culpa dela: o repórter pode ter entrevistado várias pessoas, algumas mais veementes, mas escolhida essa médica justamente por ela ser mais cautelosa. Ou a edição pode ter abrandado as afirmações que ela fez.

O secretário de Saúde de Campo Grande, Luiz Henrique Mandetta, disse: “a gente imagina sim funcionar como um elemento de estabilização do humor, como um elemento de calma”.

“Estabilização de humor”???? WTF??? Em que século esse cara vive? Será que ele vai sugerir sanguessugas para fazer uma sangria e eliminar maus fluídos?

É realmente preocupante que alguém na posição de Secretário de Saúde faça afirmações como essa.

O presidente da Sociedade Brasileira de Infectologia, Juvêncio Furtado, disse que desconhece estudos que comprovem a eficácia de medicamentos homeopáticos no tratamento da nova gripe.

Aqui valem os mesmos comentários feitos com relação à afirmação da infectologista, mesmo por que ele falou a mesma coisa.

O Ministério da Saúde reconhece o valor terapêutico da homeopatia em alguns tratamentos pelo SUS. Mas, no caso da nova gripe, o ministério afirmou que nenhum medicamento homeopático está indicado.

Que vergonha!, Ministério da Saúde. Assim como o CRM, eu esperava mais de vocês com relação à filtragem de terapias cientificamente comprovadas das pseudociências. E o pior é que estão usando dinheiro público para financiar a pseudomedicina e charalatões que a praticam.

A Secretaria de Saúde de Campo Grande já tinha usado a homeopatia durante o surto de dengue no verão de 2007.

Coincidência ou não, em 2007 o estado campeão da dengue foi Mato Grosso do Sul, com 74 mil casos no total, ou 3188 casos por 100 mil habitantes, conforme a Sociedade Brasileira de Infectologia.

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Em resumo, temos uma atuação vergonhosa da Secretaria de Saúde de Campo Grande, suportada pela política de boa vizinhança para com os colegas homeopatas do CRM e do Ministério da Saúde. E, para completar o quadrilátero da vergonha, que vergonha!, Central Globo de Jornalismo, não por reportar a atitude irresponsável das autoridades de Campo Grande (é dever do jornalismo fazer isso), mas por fazê-lo de uma maneira que as pessoas possam achar que é um tratamento válido. Deveriam ter mostrado muito mais o lado científico, enfatizando que não há base científica que suporte a homeopatia, que estudos não encontraram indícios de que ela funcione melhor que um placebo, e que há riscos em utilizar a homeopatia ao invés da medicina baseada na ciência.

Um outro blog foi mais rápido e já comentou sobre o assunto: Cultura Científica.

Ciência e pseudociência

Achei no site dos Young Australian Skeptics uma tabela parecida com a seguir realçando algumas das principais diferenças entre ciência e pseudociência e similares:

Ciência Pseudociência
Muda com evidências novas Idéias imutáveis
Considera todas as novas descobertas Considera só o que convém
Revisada/criticada (sem dó) por outros cientistas Sem revisão
Aberta a críticas Vê críticas como uma conspiração
Resultados podem ser reproduzidos Resultados não podem sempre ser reproduzidos
Limitada, e sabe disso Diz ter uma utilidade praticamente ilimitada
Rigor nos experimentos e medidas Experimentos e medidas tendenciosos

Naturalmente isso não é tudo, mas é um bom resumo.

Para uma explicação bem mais detalha, este artigo do Quackwatch é uma excelente leitura.

Semana da Conscientização para Homeopatia

Semana passada (de 14 a 21 de junho) foi a Semana de Conscientização para Homeopatia da Associação Homeopática Britânica. Estou atrasado, mas ainda assim devo dizer que concordo plenamente com a importância da conscientização sobre a homeopatia, então coloco abaixo um testmo que recebi há muito tempo sobre o assunto. Provavelmente foi o primeiro texto que vi que descrevia os princípios da homeopatia, e que me fez ver que as idéias dela se encaixam na categoria “nem sequer errado”.

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Manual do homeopata mirim

José Colucci Jr.

Amiguinho, na matéria “O que é a homeopatia”, publicada na seção Ciência do caderno Estadinho (O Estado de S.Paulo, 24/11/01), você aprendeu como a homeopatia funciona e como são feitos os remédios homeopáticos. Com este artigo aqui no Observatorinho você irá, brincando, ampliar os conhecimentos adquiridos naquela leitura. Vamos brincar de homeopata. A diferença é que, ao contrário do Estadinho, eu acho que você já pode exercitar o pensamento crítico. Pensar é coisa que se aprende em criança, como se aprende a nadar e andar de bicicleta. Vamos à brincadeira.

O remédio de mentirinha

Quando pequeno eu gostava muito de brincar de médico com as minhas primas. Meu tio, o pai delas, ficava bravo quando nos pegava brincando, e acabava logo com a brincadeira – talvez por medo que alguém se machucasse. Não se preocupe. Brincar de homeopata é seguro, pois, como você verá, na homeopatia não há injeções.

Primeiro é preciso preparar o remédio de mentirinha. Arranje uma porção de frascos de plástico, com tampa, e uma colher. Não use vidro. Vidro pode quebrar e machucar a sua mão. Os frascos têm de estar bem limpos. Coloque cem colheres de água no primeiro frasco e acrescente uma colher do remédio. Que remédio? Ora, que pergunta! Você aprendeu no Estadinho que “o que pode fazer mal também pode curar”. Assim, pegue uma substância que cause em pessoas sadias os mesmos sintomas da doença a ser tratada. Por exemplo, para curar doenças que causem vômito, use uma substância que cause vômito em pessoas sadias, como, por exemplo, creolina – aquele desinfetante fedido que a sua mãe usa na casinha do cachorro. Daqui em diante vamos chamar essa substância de princípio ativo. Não use veneno para matar rato como princípio ativo. Não é que tenha perigo; nas diluições que usaremos nada tem perigo. É que você pode errar na receita e matar algum amiguinho.

Pois bem, como dizíamos, coloque cem colheres de água no primeiro frasco e junte uma colher de princípio ativo. Tampe e chacoalhe bem. Não se esqueça dessa parte, pois os homeopatas atribuem a ela uma grande importância. É a chamada sucussão, que faz as moléculas da água absorverem a “essência” do princípio ativo em sua memória. Se você não sabia que a água tem memória, ficou sabendo agora. Tem, e é muito boa; tanto que só se lembra do que quer. A melhor maneira de fazer a sucussão, segundo os homeopatas, é golpear o frasco cem vezes contra um objeto macio. Eles usam uma tira de couro, nós podemos usar um travesseiro. Essa é a primeira diluição, chamada C1. Vamos às próximas diluições.

Junte uma colher da solução diluída do primeiro frasco, C1, a cem colheres de água no segundo frasco. Agite o segundo frasco cem vezes. Essa é a diluição C2. Coloque cem colheres de água no terceiro frasco, junte uma colher da diluição C2 e agite cem vezes. Essa é a diluição C3. Prossiga assim, diluindo cada vez mais. Quando você chegar ao sexto frasco, C6, a solução estará tão diluída quanto a água de uma piscina olímpica onde pingou-se uma gota de Creolina. Nessa concentração, a piscina tem mais moléculas do xixi do seu irmãozinho do que de creolina. Não pare por aí. Como futuro homeopata você tem de aprender que “quanto mais diluído, mais cura”. Aumentando a diluição, aumentamos a potência do remédio. Vejo pela sua cara que você não acredita. Até parece que você não lê o Estadinho. Se continuar a pensar racionalmente você nunca será um bom homeopata.

Evite respirar

Continue diluindo. Evite respirar, pois daqui para a frente a sua respiração introduz no frasco mais moléculas ativas do que as já presentes na solução. Pare quando chegar ao décimo segundo frasco. Olhe para a água. Você vê alguma coisa diferente? Não? Experimente umas gotas. Sente algum gosto estranho? Claro que não, pois na diluição C12 não existe uma só molécula do princípio ativo na solução. Essa diluição equivale aproximadamente a uma gota de princípio ativo dissolvida na água de todos os oceanos da Terra. Se você prosseguir diluindo, como fazem os homeopatas, estará misturando água com água.

Mas aí vem o chato do Juquinha, aquele seu amigo que gosta de ciência. Se ele duvidar da eficácia do nosso remédio, responda à altura. Mostre o quanto ele é limitado em sua visão convencional dos conceitos de química e biologia. Explique que o processo de sucussão “promove o armazenamento de energia da região infravermelha do espectro nas ligações moleculares do solvente” e que essa energia é “liberada pelo contato do solvente com a água dos organismos vivos”. Eu sei que nem você nem eu entendemos essa explicação. O nosso consolo é que o homeopata que a formulou também não, do contrário jamais teria dito tamanha asneira.

Deixe o Juquinha de lado. Esses escravos da lógica não tem futuro. Quando crescer, aposto que ele será um desses médicos que só aceitam a medicina baseada em evidências. Certamente passará a vida trabalhando num hospital do SUS.

O remédio que acabamos de preparar é muito parecido com o remédio homeopático chamado Kreosotum. Arranje um rótulo para o frasco da última diluição e escreva nele: Kreolinum C12, pois a homeopatia usa nomes em latim. O remédio chamado Natrum Muriaticum, por exemplo, é cloreto de sódio, ou sal de cozinha. Aposto que você, com a sua cabecinha de criança, nunca imaginou que, bem diluído, o mesmo sal que a sua mãe põe nas batatas pode ser usado para curar doenças como úlcera, anemia, febre, tosse comprida e varizes. Não faça essa cara de cético, menino. Desse jeito você vai virar colega do Juquinha no corpo clínico de algum hospital público.

A consulta homeopática

Agora que você já tem o remédio de mentirinha, é preciso arranjar um livro de mentirinha. Pegue um bem antigo, de preferência com as páginas já amareladas. Escreva na capa, em letras caprichadas, Materia Medica. A primeira Materia Medica homeopática foi publicada por Samuel Hahnemann, o criador da doutrina, há exatamente cento e oitenta anos. Na época de Hahnemann, os tratamentos médicos convencionais incluíam drogas perigosíssimas, lavagens intestinais, sangrias e aplicação de sanguessugas. Eu não sei você, mas se eu vivesse naquela época preferiria me tratar com o Dr. Hahnemann. Afinal, a maioria das doenças acaba se curando sem tratamento algum. Tenho calafrios só de pensar em uma porção de vermes grudados nas minhas costas, a me chupar o sangue.

Felizmente, a medicina mudou bastante desde 1821. Eu nunca fui tratado por médico que usasse sanguessugas, e olha que eu sou bem mais velho do que você. Os homeopatas, porém, não mudaram muito. Para eles, os princípios de Hahnemann continuam valendo. A Materia Medica que tenho em mãos – escrita por Clarke em 1900, mas ainda bastante usada – diz que o próprio nome latino materia é inapropriado, pois o homeopata lida com “forças de ordem muito mais alta do que as conhecidas da velha física”. Não sei por quê, mas a frase me faz lembrar da minha tia Suzi, cuja casa cheira a incenso de patchuli.

O remédio que acabamos de preparar, como eu disse, é parecido com o Kreosotum. Vamos ver lá na Materia Medica para quê serve. O Kreosotum é indicado para dentes cariados, doenças das gengivas, vômitos, certas doenças do estômago e feridas que sangrem muito. Como o remédio é de mentirinha, receite-o para alguém de mentirinha, como uma boneca ou um ursinho de pelúcia. Não!, melhor, receite-o para a sua avó, que está sempre imaginando doenças. A homeopatia é comprovadamente eficaz na cura da hipocondria.

Boca fechada

Percebo pela sua cara que você está começando a desconfiar que uma gota de remédio dissolvida em várias vezes o volume de água do Rio Amazonas não pode ter efeito fisiológico. Admiro o seu raciocínio, bem mais arguto do que o de muitos adultos, mas fique de boca fechada. Se você quer ser médico, tem que aprender a não falar mal dos colegas de profissão. É que a homeopatia, como você aprendeu no Estadinho, é reconhecida pelo Conselho Federal de Medicina. A grande maioria dos médicos não acredita nela, mas evita falar mal dos homeopatas para não ferir a ética profissional.

Esse negócio de não poder falar mal dos colegas de profissão é realmente estranho. Coloca-se com isso o interesse de uma classe acima do interesse público. Dou um exemplo. Quando eu estava terminando este artigo, a Revista IstoÉ de 27/11/2001, publicou a matéria de título “Seleção Esotérica”. A matéria explica como a numerologia e a astrologia estão sendo usadas na seleção de candidatos a emprego. Isto é, tem gente competente sendo discriminada porque foi batizada com o número errado de letras, ou porque o obstetra atrasou a cesariana. Segundo a IstoÉ, várias empresas se utilizam de técnicas esotéricas na seleção de pessoal e administração. Entre os especialistas das “técnicas alternativas” de recursos humanos citados na reportagem estão dois engenheiros e uma arquiteta. Eu gostaria muito de dizer o que acho desses picaretas, mas não posso. É a ética, entende?

Vamos parar de brincar, que a sua mãe está chamando. Na semana que vem inventaremos uma brincadeira nova. Estou pensando em algo assim como o Manual do Pequeno Numerólogo, ou O Guia da Criança Astróloga. Por enquanto, vá providenciando a parte mais importante: os clientes. Arranje uma porção de crianças bobas, mas bem bobas mesmo. Peça para trazerem o dinheiro da mesada. Um abraço do tio Zezé.

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Bom, talvez não seja exatamente esse tipo de conscientização que a Associação gostaria, mas tirando esse detalhe mínimo, eu e ela estamos de acordo.

Deixo também o link para um post do mesmo tema escrito pelo Steve Novella que vale a pena ler, e para uma carta escrita e enviada para um fabricante de remédios homeopáticos com importantes dúvidas como “se eu sinto que não preciso de uma dose completa e quero meia dose, devo tomar dois comprimidos”?

Carta ao Jornal Nacional

Eu tentei enviar o texto abaixo ao Jornal Nacional, mas por algum motivo o formulário de contato deles só aceita até 1000 caracteres (escrevi um pouco mais que o dobro disso). Então fica como uma carta aberta à redação.

Achei uma excelente iniciativa a reportagem do Jornal Nacional de ontem (25/05) sobre uma pessoa sem qualificação adequada (segundo ela mesma, formada em sociologia) se passando por médico e realizando consultas.

Esse tipo de situação é muito grave por colocar em risco a vida de pessoas que, sem saber, podem estar sendo diagnosticadas por pessoas sem condições para tal. Ainda pior é quando falsos médicos receitam substâncias que podem até mesmo piorar a condição do paciente, ou causar alguma doença que ela não tinha.

Infelizmente, temos muitos casos parecidos com esses na nossa sociedade. Além de pessoas que se dizem médicos, temos também muitas pessoas promovendo os mais diversos tipos de “curas alternativas”, como homeopatia, cromoterapia, aromaterapia, acupuntura, quiropraxia, entre muitas outras, ou simplesmente vendendo supostos remédios para as mais diversas doenças. Todos esses “métodos alternativos” não se baseiam em princípios científicos, não foram testados apropriadamente, não há indícios de que realmente tenham um efeito curativo, e se baseiam em relatos anedotais sobre supostas curas.

Assim como no caso do falso médico do interior de São Paulo, é uma situação grave pois pode colocar a vida de pessoas em risco. Alguns tratamentos simplesmente não curam as pessoas, outros porém podem até fazer mal. Mas mesmo em se tratando de uma substância inofensiva, a partir do momento que alguém deixa de tomar medicamentos que foram testados rigorosamente e cuja eficácia foi comprovada e se submete a tratamentos alternativos, sua doença pode piorar, às vezes até um ponto que suas chances de cura são muito diminuídas.

Desta forma, deixo a sugestão de que, aproveitando esta reportagem apresentada ontem, o assunto de outros tipos de charlatanismo na área da medicina sejam abordados, a fim de alertar as pessoas dos riscos dessas práticas e deixá-las mais informadas para que, em situações difícieis, como a doença sua ou de um familiar, possam fazer uma escolha informada a respeito de como tratar essa doença.

Pode-se acreditar no que quiser?

Basicamente, sim, a escolha é de cada um. Porém, é preciso ter algumas coisas em mente:

  1. Muitas coisas não são uma questão de acreditar ou de ter fé. Você até pode acreditar em algo para o qual toda a evidência aponta para o contrário, mas se você fizer isso, está agindo como um idiota, logo espere ser tratado como um. Você vai ser criticado, vai ser ridicularizado, e não adianta reclamar. Quanto mais comprovadamente falsa for a coisa em que você decidir acreditar, pior vai ser. Isso vale mesmo para coisas para as quais não se tem certeza. Mesmo nesse caso é sempre preferível fazer uma escolha informada com base no que já se sabe e nas probabilidades de cada hipótese ser verdadeira.
  2. Algumas “escolhas” podem ser perigosas. Nos EUA há uma moda atualmente em crer que vacinas não só não servem ao seu propósito de proteger as crianças das doenças como causam autismo. Isso cai no caso anterior, uma vez que nenhum estudo confirmou a afirmação desses imbecis. Pelo contrário, não foi constatada nenhuma relação entre vacinas e autismo. No entanto, o que pode acontecer quando se decide arbitrariamente acreditar em algo sem se basear em evidências é grave e perigoso. E as consequências estão sendo observadas, com o surgimento de epidemias de doenças que tinham apenas uns poucos casos por ano.
  3. É necessário ter consciência das limitações de sua crença, e tratá-la como tal. Se você insiste em rejeitar a evolução (que é um fato), tudo bem. Mas não tente justificar isso com argumentos pseudo-científicos. Outra tendência dos EUA é o “Design Inteligente”, que se define como uma “teoria científica” que afirma que a vida surgiu graças a um “designer” que a fez assim. Mas não há nada de ciência nisso. Não adianta tentar disfarçar crenças de ciência. Da mesma forma, não adianta tentar querer impor esse tipo de crença em outras pessoas, que é o que os criacionistasdefensores do design inteligente tentam fazer, tentando de todos os modos incluir essa teoria religiosa disfarçada nos currículos escolares, e limitar o ensino de ciência de verdade. Acreditar nessa idéia em si não é realmente errado (embora possa ser um tanto quanto estúpido), mas querer que ela tome o lugar de ciência de verdade, feita da maneira correta, é errado.

Curta sobre numerologia

Supondo que a numerologia funcione, por que sempre que alguém troca o nome por razões numerológicas esta pessoa deixa o nome mais “complicado”? É comum termos notícias de alguém que duplicou uma letra, colocou um “h”, trocou um “i” por um “y”, etc., mas é muito raro (se é que já aconteceu) alguém tornar o nome mais simples ou comum, de Allinny virar um banal “Aline”, ou de “Addhrianny” virar “Adriane”, para citar alguns exemplos hipotéticos.

Estatisticamente, se a numerologia funcionasse, deveríamos esperar que em mais ou menos metade dos casos fosse necessário adicionar uma letra, ou trocar um “i” por “y”, por exemplo; mas na outra metade das vezes o contrário deveria acontecer: remover uma letra, ou trocar o “y” por “i”, etc.Ainda assim, vê-se quase exclusivamente o primeiro caso.

Você acredita nisso?

Quase sempre, ao nos depararmos com assuntos pseudocientíficos, encontramos o uso da idéia de “acreditar”. Pessoas dizem que acreditam (ou que não acreditam) em espíritos, em fenômemos paranormais, na astrologia, em maneiras de prever o futuro, na homeopatia, etc.

Essa é uma maneira errada de lidar com isso. O fato de acreditar ou não em algo é totalmente irrelevante para a sua existência (ou inexistência) ou sua validade. Supondo que existissem fenômenos paranormais (ou espíritos, ou o monstro do lago Ness, etc.), o fato de eu, você, o papa, o Lula, ou qualquer outra pessoa acreditar ou não neles em nada vai alterar essa existência, nem vai torná-la mais (ou menos) plausível.

O mesmo vale com relação a coisas cuja validade é questionada (e não sua existência), por exemplo a homeopatia ou outras “curas alternativas”. Geralmente os defensores da homeopatia dizem que “acreditam” nela. É bom para eles isso, mas irrelevante. Se a homeopatia realmente funciona (qualquer que seja o motivo ainda não compreendido pela ciência), ela vai funcionar independentemente de o paciente acreditar nela ou não. (Uma observação necessária aqui é que neste caso em particular, acreditar no tratamento pode ajudar na sua eficácia, mas isso é válido tanto para tratamentos “tradicionais” quanto “alternativos”, tanto para tratamentos comprovados quanto os de validade duvidosa.)

A mesma coisa vale para o “não acreditar”. Se algo existe ou é válido, o fato de não acreditar nele em nada influencia na sua existência ou validade. Alguém pode até dizer que não acredita na lei da gravidade, mas os efeitos dela vão continuar valendo para aquela pessoa. Ou alguém pode dizer que não acredita na dengue, mas pessoas vão continuar ficando doentes, e algumas até morrendo disso.

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