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Carta à Gazeta do Povo

Mandei a carta a seguir para o jornal Gazeta do Povo, que hoje publicou uma reportagem afirmando que a procura por “medicina” alternativa (que na verdade de medicina não tem nada) deveria ser maior:

Segundo a reportagem publicada no jornal, os números da procura por “medicina alternativa” (que eu pessoalmente prefiro chamar de “pseudomedicina”) deveriam ser maiores. Pelo contrário, esses números estão altos demais; o ideal seria se não tivéssemos nenhuma consulta “alternativa” e as pessoas fossem tratadas com terapias que efetivamente funcionam.

É lamentável que o SUS gaste o dinheiro dos contribuintes financiando práticas alternativas como as citadas homeopatia e acupuntura, que só são suportadas por relatos anedotais e “estudos” de qualidade duvidosa, que usam amostras muito pequenas, que avaliam os benefícios de maneira subjetiva e outros problemas. E, por outro lado, quando são feitos estudos com o rigor necessário, a conclusão é que essas práticas não tem efeito melhor do que um placebo. Embora as práticas muitas vezes não tragam riscos diretos aos pacientes (mesmo porque não têm efeito), elas são perigosas caso alguém troque a medicina baseada em ciência por tais “terapias” e deixe de receber o tratamento necessário.

Também é lamentável que a Gazeta do Povo tenha feito uma reportagem incentivando a procura por tais práticas sem ouvir uma opinião contrária a elas, quando na realidade deveria ter feito uma reportagem alertando sobre os perigos no uso de tais práticas e incentivando a procura por métodos de tratamento com eficácia comprovada.

O endereço para contato é leitor@gazetadopovo.com.br.

Por motivos óbvios não pude me estender nos detalhes, mas além do que já escrevi sobre o assunto, recomendo os sites Quackwatch, Science-based Medicine e Neurologica.

Lavar as mãos é coisa do passado: Prevenções bizarras (e ineficazes) para a gripe suína

É fácil rir de ideias absurdas para combater a gripe suína quando elas estão longe. Como os rabinos que sobrevoaram Israel cantando e soprando trombetas para impedir que o vírus se espalhe (!!!). Veja o vídeo para rir, mas leia também alguns comentários sérios.

Mas, de repente, as coisas não são mais tão engraçadas quando acontecem aqui. Como é o caso de uma infeliz reportagem do Jornal Nacional exibida dia 20 de agosto.

Em resumo, a Secretaria Municipal de Saúde de Campo Grande pretende evitar a gripe com água. Mas não uma água qualquer, água rotulada “remédio homeopático”, pois assim ela obtém poderes sobrenaturais. Abaixo a reportagem completa e comentários meus.

O debate sobre a melhor forma de se proteger contra a gripe suína ganhou mais uma polêmica. De Campo Grande, a repórter Cláudia Gaigher mostra que o motivo foi uma decisão da Secretaria Municipal de Saúde.

Não vou negar que seja um tanto quanto polêmico, mas não deveria ser. Polêmico é algo que gera alguma discussão, mas no caso de homeopatia, já foi confirmado que ela não funciona. O que não é de surpreender, visto que os “remédios homeopáticos” são apenas água. Então não é uma questão de discussão, é algo que não funciona e que não devia sequer ser considerado.

O medicamento já usado na prevenção da gripe comum.

Já que foi usado, poderiam ter falado algo sobre os resultados – se é que fizeram um estudo rigoroso dos resultados, ao invés de se basear em coisas subjetivas como depoimentos de pacientes que dizem que se sentiram melhores alguns dias depois de tomar o “remédio”. Mas duvido que tenham feito tal análise.

“Ele é feito a partir do próprio vírus influenza, não especificamente deste vírus influenza que está aqui agora. Mas de várias cepas. Ele foi diluído e dinamizado 200 vezes. O que significa que neste medicamento já não existe nem uma partícula do vírus”, disse a farmacêutica Ana Paula Zandavalli.

Essa é a única parte da reportagem que presta para alguma coisa. A descrição é correta, mas muito breve. Para que não sabe como a homeopatia é feita, isso não ajuda muito a perceber que os métodos usados simplesmente não fazem sentido. Além disso, o local onde foi apresentado o lado científico na reportagem não ajuda, visto que logo em seguida autoridades falam das supostas virtudes desse “medicamento” que não contém nenhuma partícula do vírus.

Um médico homeopata explica como o remédio pode agir no organismo. “A gente espera que as pessoas que vão desenvolver, desenvolvam os sintomas mais leves e que diminuam os índices de complicações”, disse o médico homeopata Luiz Darcy Siqueira.

Não, o “médico” homeopata não explica como o remédio pode agir no organismo. Ele explica o que se deseja que o “remédio” faça, mas uma explicação de como o remédio age seria algo muito mais técnico, como essa descrição do mecanismo de ação da Aspirina. Mas, como em outras pseudociências, os defensores da homeopatia não são capazes de propor um modelo plausível de funcionamento, e usam no máximo de termos vagos como “memória da água” ou “lei dos semelhantes”.

A prefeitura vai distribuir 400 mil doses em postos de saúde e escolas municipais em Campo Grande. Segundo as autoridades de saúde, essa é mais uma medida preventiva para fortalecer o sistema imunológico da população, não é a cura da gripe A.

“Não se trata de vacina. É uma prevenção homeopática, mais um cuidado do nosso município prevenindo a infecção em muitas pessoas”, explicou Rita de Cássia Lourenço, da Sociedade de Homeopatia (MS).

Que vergonha!, prefeitura. Mesmo com o reconhecimento de que é só algo para “fortalecer o sistema imunológico”, ainda assim é uma medida ineficaz que traz falsas esperanças.

O Conselho Regional de Medicina não vê problemas na medida. “Não faz parte do manejo clínico da vigilância epidemiológica da influenza, do H1N1, mas se for orientação da homeopatia, que é uma especialidade reconhecida pelo Conselho Federal de Medicina, acreditamos que estejam fazendo nas melhores das intenções no sentido profilático”, disse Antônio Carlos Bilo, do Conselho Regional de Medicina (MS).

Que vergonha!, CRM. O Conselho deveria sim ver problemas na medida, visto que se trata de um tratamento ineficaz (ver links acima). E é ainda mais lastimável que a homeopatia seja uma especialidade reconhecida. Eu esperava que o órgão regulador da atividade médica no Brasil fizesse um trabalho mais sério de separar o joio do trigo com relação a tratamentos que funcionam e tratamentos que são apenas enganação.

Quanto a eles estarem oferecendo a “prevenção homeopática” na melhor das intenções, disso eu não tenho dúvidas. Mas precisamos algo mais do que boas intenções, como tratamento e prevenção de verdade. Seria bom se pudéssemos curar (ou prevenir) câncer, AIDS, tuberculose, etc., com “boas intenções”, mas infelizmente essa não é a realidade.

Os infectologistas são mais cautelosos. “A gente tenta trabalhar em cima de literatura científica, as coisas que comprovadamente são eficazes, que já têm estudos em cima disso. E eu como infectologista desconheço essa questão de estudo, eficácia”, disse a infectologista Andrea Lindemberg.

Não me surpreende que desconheça, visto que ela não existe. Existem sim alguns estudos que supostamente comprovaram a eficácia da homeopatia, mas eles não resistem a uma análise rigorosa: as amostras são pequenas, não foi usado o método duplo-cego corretamente, a avaliação dos efeitos é feita subjetivamente, etc.

Fiquei decepcionado com a posição “morna” da infectologista. Mas talvez não seja culpa dela: o repórter pode ter entrevistado várias pessoas, algumas mais veementes, mas escolhida essa médica justamente por ela ser mais cautelosa. Ou a edição pode ter abrandado as afirmações que ela fez.

O secretário de Saúde de Campo Grande, Luiz Henrique Mandetta, disse: “a gente imagina sim funcionar como um elemento de estabilização do humor, como um elemento de calma”.

“Estabilização de humor”???? WTF??? Em que século esse cara vive? Será que ele vai sugerir sanguessugas para fazer uma sangria e eliminar maus fluídos?

É realmente preocupante que alguém na posição de Secretário de Saúde faça afirmações como essa.

O presidente da Sociedade Brasileira de Infectologia, Juvêncio Furtado, disse que desconhece estudos que comprovem a eficácia de medicamentos homeopáticos no tratamento da nova gripe.

Aqui valem os mesmos comentários feitos com relação à afirmação da infectologista, mesmo por que ele falou a mesma coisa.

O Ministério da Saúde reconhece o valor terapêutico da homeopatia em alguns tratamentos pelo SUS. Mas, no caso da nova gripe, o ministério afirmou que nenhum medicamento homeopático está indicado.

Que vergonha!, Ministério da Saúde. Assim como o CRM, eu esperava mais de vocês com relação à filtragem de terapias cientificamente comprovadas das pseudociências. E o pior é que estão usando dinheiro público para financiar a pseudomedicina e charalatões que a praticam.

A Secretaria de Saúde de Campo Grande já tinha usado a homeopatia durante o surto de dengue no verão de 2007.

Coincidência ou não, em 2007 o estado campeão da dengue foi Mato Grosso do Sul, com 74 mil casos no total, ou 3188 casos por 100 mil habitantes, conforme a Sociedade Brasileira de Infectologia.

divisor

Em resumo, temos uma atuação vergonhosa da Secretaria de Saúde de Campo Grande, suportada pela política de boa vizinhança para com os colegas homeopatas do CRM e do Ministério da Saúde. E, para completar o quadrilátero da vergonha, que vergonha!, Central Globo de Jornalismo, não por reportar a atitude irresponsável das autoridades de Campo Grande (é dever do jornalismo fazer isso), mas por fazê-lo de uma maneira que as pessoas possam achar que é um tratamento válido. Deveriam ter mostrado muito mais o lado científico, enfatizando que não há base científica que suporte a homeopatia, que estudos não encontraram indícios de que ela funcione melhor que um placebo, e que há riscos em utilizar a homeopatia ao invés da medicina baseada na ciência.

Um outro blog foi mais rápido e já comentou sobre o assunto: Cultura Científica.

Alimentos orgânicos não são melhores

Um estudo feito na Inglaterra não achou nada que indicasse que os alimentos orgânicos sejam melhores que os outros, diz a Reuters. As diferenças encontradas entre os dois tipos de alimentos foram mínimas e não são suficientes para fazer qualquer diferença à saúde. A única diferença mesmo é o preço, bem mais caro para os orgânicos.

Produtores de produtos orgânicos questionaram o estudo, naturalmente.

(Informação obtida do Depleted Cranium.)

Os perigos do Monóxido de Dihidrogênio. E James Randi

Vocês talvez já tenham visto um e-mail que circula pela internet propondo uma campanha para banir o uso do Monóxido de Dihidrogênio. Entre outras coisas, é informado que essa substância é um dos principais componentes da chuva ácida, pode causar sérias queimaduras, e foi encontrada em grandes quantidades em pacientes com câncer.

Todas as afirmações são verdadeiras, o único pequeno detalhe é que Monóxido de Dihidrogênio é, vejamos… H2O, isto é, água! Um excelente exemplo de como manipular informações para levar pessoas a conclusões erradas, e da importância da análise cuidadosa das informações antes de acreditar em tudo que se vê por aí.

Enfim, o pessoal do Young Australian Skeptics, em seu podcast número 10 foi às ruas como “ativistas do meio ambiente” para tentar convencer pessoas a assinar um abaixo-assinado contra a substância. Não surpreendentemente, obtiveram sucesso. Houve pessoas como como a mulher que “assina qualquer coisa que seja pelo meio-ambiente”, mas até que as pessoas tentavam se informar, mas acabavam convencidas dos terríveis efeitos da substância. (Mas no final eles contaram a todos os entrevistados que não era nada além de água.)

Só por isso já vale a pena ouvir o programa (apesar de o sotaque ser meio difícil de entender às vezes). Mas há também uma entrevista com o James Randi. Certamente vale a pena ouvir.

“Vagas limitadas”

Eu não creio que algum produtor de eventos leia isso (ou mesmo que algum produtor de eventos vá ler isso em algum momento futuro), mas mesmo assim tenho que reclamar: não anunciem que há um “número limitado” de vagas, isso é inútil e não diferencia o seu evento em nada.

Não interessa se é um show, uma palestra, uma peça de teatro, etc… Também não interessa onde é o evento: qualquer evento, em qualquer lugar tem um número limitado de vagas. Podem ser muitas, podem ser poucas, mas certamente não cabem infinitas pessoas. Especialmente caso se trate de algum lugar fechado, e mais especialmente se for alguma espécie de auditório com um número determinado de cadeiras, é evidente que só um determinado número de pessoas poderá participar. Não precisa falar o óbvio.

É claro que anunciar “vagas limitadas” é marketing, faz o evento parecer mais “exclusivo” ou “diferenciado”. Mas é um marketing incrivelmente idiota. Fazendo um paralelo, seria o mesmo que uma fábrica de carros tentar “diferenciar” seu novo lançamento anunciando que o carro “vem com bancos!”, ou promover um celular dizendo “faz e recebe ligações!”, ou que um fogão “cozinha seus alimentos!”, e por aí vai.

A causa da crise

Segundo uma reportagem¹ do jornal “Gazeta do Povo” (um dos maiores, senão o maior, do estado do Paraná), a causa da crise econômica que vem assolando o mundo (exceto o Brasil, segundo Lula) se deve “à passagem de Saturno por Virgem, que estava em trígono com Júpiter em Capricórnio e Urano em Peixes”. Nada de problemas com hipotecas nos EUA, nenhuma relação com alavancagem excessiva dos bancos, isso é tudo bobagem.

É até difícil de acreditar, mas é isso mesmo: um jornal de ampla circulação, sério, dedica um espaço razoável a uma “explicação alternativa” para a crise baseada numa pseudociência que afirma que a posição dos planetas no espaço pode afetar a vida e a personalidade das pessoas e, como vemos agora, até a economia, mas que nunca se deu ao trabalho de propor uma explicação sobre como essa influência é exercida.

O que virá em seguida? Uma coluna diária sobre o chupa-cabra? Uma série de reportagens no Jornal Nacional sobre o criacionismodesign inteligente? Um documentário sobre numerologia?


¹ De meia página², com direito a chamada na primeira página do jornal, e também num comercial na TV.

² Sendo que a outra meia página é dividida entre um anúncio e outra reportagem sobre astrologia.

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