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Pode-se acreditar no que quiser?

Basicamente, sim, a escolha é de cada um. Porém, é preciso ter algumas coisas em mente:

  1. Muitas coisas não são uma questão de acreditar ou de ter fé. Você até pode acreditar em algo para o qual toda a evidência aponta para o contrário, mas se você fizer isso, está agindo como um idiota, logo espere ser tratado como um. Você vai ser criticado, vai ser ridicularizado, e não adianta reclamar. Quanto mais comprovadamente falsa for a coisa em que você decidir acreditar, pior vai ser. Isso vale mesmo para coisas para as quais não se tem certeza. Mesmo nesse caso é sempre preferível fazer uma escolha informada com base no que já se sabe e nas probabilidades de cada hipótese ser verdadeira.
  2. Algumas “escolhas” podem ser perigosas. Nos EUA há uma moda atualmente em crer que vacinas não só não servem ao seu propósito de proteger as crianças das doenças como causam autismo. Isso cai no caso anterior, uma vez que nenhum estudo confirmou a afirmação desses imbecis. Pelo contrário, não foi constatada nenhuma relação entre vacinas e autismo. No entanto, o que pode acontecer quando se decide arbitrariamente acreditar em algo sem se basear em evidências é grave e perigoso. E as consequências estão sendo observadas, com o surgimento de epidemias de doenças que tinham apenas uns poucos casos por ano.
  3. É necessário ter consciência das limitações de sua crença, e tratá-la como tal. Se você insiste em rejeitar a evolução (que é um fato), tudo bem. Mas não tente justificar isso com argumentos pseudo-científicos. Outra tendência dos EUA é o “Design Inteligente”, que se define como uma “teoria científica” que afirma que a vida surgiu graças a um “designer” que a fez assim. Mas não há nada de ciência nisso. Não adianta tentar disfarçar crenças de ciência. Da mesma forma, não adianta tentar querer impor esse tipo de crença em outras pessoas, que é o que os criacionistasdefensores do design inteligente tentam fazer, tentando de todos os modos incluir essa teoria religiosa disfarçada nos currículos escolares, e limitar o ensino de ciência de verdade. Acreditar nessa idéia em si não é realmente errado (embora possa ser um tanto quanto estúpido), mas querer que ela tome o lugar de ciência de verdade, feita da maneira correta, é errado.

Você acredita nisso?

Quase sempre, ao nos depararmos com assuntos pseudocientíficos, encontramos o uso da idéia de “acreditar”. Pessoas dizem que acreditam (ou que não acreditam) em espíritos, em fenômemos paranormais, na astrologia, em maneiras de prever o futuro, na homeopatia, etc.

Essa é uma maneira errada de lidar com isso. O fato de acreditar ou não em algo é totalmente irrelevante para a sua existência (ou inexistência) ou sua validade. Supondo que existissem fenômenos paranormais (ou espíritos, ou o monstro do lago Ness, etc.), o fato de eu, você, o papa, o Lula, ou qualquer outra pessoa acreditar ou não neles em nada vai alterar essa existência, nem vai torná-la mais (ou menos) plausível.

O mesmo vale com relação a coisas cuja validade é questionada (e não sua existência), por exemplo a homeopatia ou outras “curas alternativas”. Geralmente os defensores da homeopatia dizem que “acreditam” nela. É bom para eles isso, mas irrelevante. Se a homeopatia realmente funciona (qualquer que seja o motivo ainda não compreendido pela ciência), ela vai funcionar independentemente de o paciente acreditar nela ou não. (Uma observação necessária aqui é que neste caso em particular, acreditar no tratamento pode ajudar na sua eficácia, mas isso é válido tanto para tratamentos “tradicionais” quanto “alternativos”, tanto para tratamentos comprovados quanto os de validade duvidosa.)

A mesma coisa vale para o “não acreditar”. Se algo existe ou é válido, o fato de não acreditar nele em nada influencia na sua existência ou validade. Alguém pode até dizer que não acredita na lei da gravidade, mas os efeitos dela vão continuar valendo para aquela pessoa. Ou alguém pode dizer que não acredita na dengue, mas pessoas vão continuar ficando doentes, e algumas até morrendo disso.

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