Descobrindo a causa do apagão FAIL

Vejam a brilhante ideia do senador Artur Virgílio (PSDB-AM):

Dizem que foi raio, que foi tempestade. Ninguém sabe. Já que ninguém sabe, vamos chamar a Fundação Cacique Cobra Coral para dar uma opinião de vidência já que a ciência a administração pública não respondem às nossas dúvidas.

Pensem nisso ao votar.

Via scienceblogs.

Um importante passo para a separação entre Estado e Igreja na Itália

crucifixoUma decisão da Corte Européia de Direitos Humanos diz que as escolas públicas italianas não devem ter em suas salas de aulas estátuas mostrando um homem seminu sendo torturado e executado*.

A decisão foi motivada pela ação movida por Soile Lautsi, que reclamou o direito de dar uma educação a seus filhos sem que eles sejam expostos contra sua vontade à religião.

A história ainda não está resolvida, a Itália quer recorrer da decisão. Mas já é um importante passo na direção de uma separação entre o Estado e a Igreja.

crescente-islamComo era de se esperar, o papa Chico Bento XVI reclamou da decisão. Me pergunto se ele reclamaria se em todas as salas de aula existisse um crescente e uma estrela e fosse ordenado que este fosse retirado.



* Não consegui achar mais detalhes sobre a decisão, mas parece que ela só se aplica mesmo às escolas (e não necessariamente a outros prédios públicos). Também não consegui descobrir se ela só fala especificamente sobre crucifixos ou se vale para qualquer símbolo religioso. Não que haja outros símbolos religiosos sendo exibidos em prédios públicos, mas seria interessante se a decisão fosse mais genérica.

Bióloga que promovia curas alternativas para o câncer morre… de câncer

A dra. Hulda Clark, que afirmava que o câncer (e outras doenças) eram causados por parasitas e que a a cura seria tão simples quanto uma mudança na dieta e uma limpeza do fígado (vejam o link para detalhes), morreu dia 3 de setembro de mieloma múltiplo, um tipo de câncer do sangue.

A notícia e a causa são confirmadas no site dela.

[Essa informação veio, mais uma vez, do Geologic Podcast.]

Uma ideia

Pensei nessa ideia: jogar uma pequena estátua antropomórfica (não precisa ser necessariamente uma obra de grande valor artístico, só precisa ser facilmente reconhecível) em algum rio. Com um pouco de sorte, conseguimos mais um feriado.

Cientistas recriam Sudário de Turim

Um cientista italiano recriou o Sudário de Turim, utilizando apenas técnicas e materiais existentes na Idade Média.

Um dos motivos pelos quais cristãos afirmam que o Sudário representa a imagem de Cristo é que não havia ainda uma explicação sobre como a imagem foi passada ao tecido. A descoberta do cientista mostra que não há nenhum processo sobrenatural envolvido e que mesmo com técnicas medievais seria possível criar algo como o Sudário.

Naturalmente, pessoas que acreditam que o Sudário realmente representa a imagem de Cristo mesmo o tecido tendo sido datado como sendo de algum período entre os anos 1260 e 1390 vão ignorar também essa nova evidência de que o Sudário é apenas uma fraude.

Palavras diluídas

Se uma imagem vale mais que mil palavras, então um vídeo deve valer mais que 1.000.000 palavras. Ou, segundo os princípios da homeopatia, um vídeo seria uma palavra altamente diluída:

É pena que esteja em inglês, mas mesmo não entendendo muito do que ele fala deve ser possível pegar a ideia do que ele está fazendo.

Só faltou uma legenda “This is what homeopaths actually believe” à la South Park.

Idiotice religiosa

[Não é uma notícia nova, mas ouvi isso no Geologic Podcast e tive que colocar aqui.]

Tem gente que diz que não devemos ridicularizar crenças de outras pessoas, em particular com relação a religião. Embora eu até concorde em parte com isso (para alguns casos), definitivamente não acho que a palavra “religião” dá liberdade total para qualquer tipo de idiotice e impede críticas.

Em 2007, uma mulher morreu após dar à luz gêmeos. Ela era testemunha de Jeová, e os praticantes dessa religião não aceitam receber transfusões de sangue, conforme a Bíblia (ou a interpretação deles dela). Ela teve uma hemorragia e, não aceitando o tratamento, morreu.

Isso é já uma idiotice. Uma pena que ela teve tempo de passar seus genes adiante antes de morrer. Mas, de qualquer forma, essa circunstância é uma que até dá para questionar se é válido ridicularizar a crença e chamar a atitude de idiota. Mas essa não é a verdadeira idiotice na situação.

Idiotice completa é o que o padrinho do casamento, sr. Peter Welch, disse após o incidente. E nesse caso não há como discutir que é simplesmente idiotice em sua forma maior, e não há nem como desculpar a afirmação com a cartada da religião. Vejamos o que ele disse:

Não podemos acreditar que ela morreu após o parto nos dias de hoje, com toda a tecnologia que temos.

Tecnologia como… transfusões de sangue, talvez?

Antigos remédios e a homeopatia

Um dos leitores desse site me mandou por e-mail uma lista de antigos remédios que causam espanto hoje em dia. A maioria são produtos feitos com cocaína, heroína e similares. (A lista também circula pelos blogs da internet, por exemplo aqui.)

Não consegui achar muitas informações sobre os produtos específicos, mas é bastante plausível que eles (ou outros parecidos) tenham existido. A cocaína era considerada um medicamento, e originalmente a Coca-Cola (feita de folhas de coca, daí o nome) continha uma pequena quantidade da droga.

Por outro lado, os “remédios” homeopáticos são basicamente os mesmos desde que foram inventados em 1796. E não digo isso pois “remédios” homeopáticos são e sempre foram apenas água, mas porque, mesmo segundo os conceitos loucos dos homeopatas, eles não mudaram desde que foram inventados. São feitos do mesmo jeito, e com as mesmas substâncias. Alguns novos componentes devem ter sido adicionadas ao repertório, mas não se fala de substâncias que na verdade podiam ser perigosas e foram descontinuadas, ou que não eram tão eficientes e foram substituídas por outras melhores, ou melhorias no processo de fabricação, etc. Basicamente a homeopatia nada mudou em 200 anos.

Por que isso? Por que homeopatia não é ciência. A ciência é um processo, e não um conjunto de ideias. Ela é falível e mutável, e está em constante desenvolvimento e evolução. Às vezes descobre-se que substâncias podem ser perigosas, que os riscos não compensam os benefícios (como aconteceu com a talidomida e a cocaína), ou novos remédios ou procedimentos são descobertos que se mostram melhores que os anteriores, e estes são naturalmente substituídos pelos mais novos. Ao contrário do que ocorre com as pseudomedicinas, imutáveis e estagnadas.

Algo que é imutável, não evolui, mantém-se sempre igual às tradições, não é necessariamente algo pseudocientífico. Mas ao nos depararmos com esta característica devemos elevar o nosso nível de alerta, e se combinada com outros comportamentos típicos das afirmações pseudocientíficas, então provavelmente estamos lidando com alguma bobagem sem nenhum fundamento. “Se ele parece com um pato, nada como um pato e grasna como um pato, então provavelmente é um pato.”

World Health Organization acerta com relação à homeopatia

Depois da vergonhosa (e perigosa) atuação das autoridades sanitárias brasileiras (tanto o Conselho Regional de Medicina quanto o Ministério da Saúde reconhecem a homeopatia como um tratamento válido), finalmente alguma organização relacionada à saúde acertou ao dizer que a homeopatia não é uma cura ou tratamento.

Trata-se da World Health Organization (WHO), que é a autoridade diretora e coordenadora para saúde da ONU. Como relata a BBC, foi emitido um comunicado claro e inequívoco que condena o uso da homeopatia como tratamento para tuberculose, diarreia, malária e outras condições:

Dr Mario Raviglione, director of the Stop TB department at the WHO, said: “Our evidence-based WHO TB treatment/management guidelines, as well as the International Standards of Tuberculosis Care do not recommend use of homeopathy.”

The doctors had also complained that homeopathy was being promoted as a treatment for diarrhoea in children.

But a spokesman for the WHO department of child and adolescent health and development said: “We have found no evidence to date that homeopathy would bring any benefit.

“Homeopathy does not focus on the treatment and prevention of dehydration – in total contradiction with the scientific basis and our recommendations for the management of diarrhoea.”

Dr Nick Beeching, a specialist in infectious diseases at the Royal Liverpool University Hospital, said: “Infections such as malaria, HIV and tuberculosis all have a high mortality rate but can usually be controlled or cured by a variety of proven treatments, for which there is ample experience and scientific trial data.

“There is no objective evidence that homeopathy has any effect on these infections, and I think it is irresponsible for a healthcare worker to promote the use of homeopathy in place of proven treatment for any life-threatening illness.”

Via Depleted Cranium.

Lavar as mãos é coisa do passado: Prevenções bizarras (e ineficazes) para a gripe suína

É fácil rir de ideias absurdas para combater a gripe suína quando elas estão longe. Como os rabinos que sobrevoaram Israel cantando e soprando trombetas para impedir que o vírus se espalhe (!!!). Veja o vídeo para rir, mas leia também alguns comentários sérios.

Mas, de repente, as coisas não são mais tão engraçadas quando acontecem aqui. Como é o caso de uma infeliz reportagem do Jornal Nacional exibida dia 20 de agosto.

Em resumo, a Secretaria Municipal de Saúde de Campo Grande pretende evitar a gripe com água. Mas não uma água qualquer, água rotulada “remédio homeopático”, pois assim ela obtém poderes sobrenaturais. Abaixo a reportagem completa e comentários meus.

O debate sobre a melhor forma de se proteger contra a gripe suína ganhou mais uma polêmica. De Campo Grande, a repórter Cláudia Gaigher mostra que o motivo foi uma decisão da Secretaria Municipal de Saúde.

Não vou negar que seja um tanto quanto polêmico, mas não deveria ser. Polêmico é algo que gera alguma discussão, mas no caso de homeopatia, já foi confirmado que ela não funciona. O que não é de surpreender, visto que os “remédios homeopáticos” são apenas água. Então não é uma questão de discussão, é algo que não funciona e que não devia sequer ser considerado.

O medicamento já usado na prevenção da gripe comum.

Já que foi usado, poderiam ter falado algo sobre os resultados – se é que fizeram um estudo rigoroso dos resultados, ao invés de se basear em coisas subjetivas como depoimentos de pacientes que dizem que se sentiram melhores alguns dias depois de tomar o “remédio”. Mas duvido que tenham feito tal análise.

“Ele é feito a partir do próprio vírus influenza, não especificamente deste vírus influenza que está aqui agora. Mas de várias cepas. Ele foi diluído e dinamizado 200 vezes. O que significa que neste medicamento já não existe nem uma partícula do vírus”, disse a farmacêutica Ana Paula Zandavalli.

Essa é a única parte da reportagem que presta para alguma coisa. A descrição é correta, mas muito breve. Para que não sabe como a homeopatia é feita, isso não ajuda muito a perceber que os métodos usados simplesmente não fazem sentido. Além disso, o local onde foi apresentado o lado científico na reportagem não ajuda, visto que logo em seguida autoridades falam das supostas virtudes desse “medicamento” que não contém nenhuma partícula do vírus.

Um médico homeopata explica como o remédio pode agir no organismo. “A gente espera que as pessoas que vão desenvolver, desenvolvam os sintomas mais leves e que diminuam os índices de complicações”, disse o médico homeopata Luiz Darcy Siqueira.

Não, o “médico” homeopata não explica como o remédio pode agir no organismo. Ele explica o que se deseja que o “remédio” faça, mas uma explicação de como o remédio age seria algo muito mais técnico, como essa descrição do mecanismo de ação da Aspirina. Mas, como em outras pseudociências, os defensores da homeopatia não são capazes de propor um modelo plausível de funcionamento, e usam no máximo de termos vagos como “memória da água” ou “lei dos semelhantes”.

A prefeitura vai distribuir 400 mil doses em postos de saúde e escolas municipais em Campo Grande. Segundo as autoridades de saúde, essa é mais uma medida preventiva para fortalecer o sistema imunológico da população, não é a cura da gripe A.

“Não se trata de vacina. É uma prevenção homeopática, mais um cuidado do nosso município prevenindo a infecção em muitas pessoas”, explicou Rita de Cássia Lourenço, da Sociedade de Homeopatia (MS).

Que vergonha!, prefeitura. Mesmo com o reconhecimento de que é só algo para “fortalecer o sistema imunológico”, ainda assim é uma medida ineficaz que traz falsas esperanças.

O Conselho Regional de Medicina não vê problemas na medida. “Não faz parte do manejo clínico da vigilância epidemiológica da influenza, do H1N1, mas se for orientação da homeopatia, que é uma especialidade reconhecida pelo Conselho Federal de Medicina, acreditamos que estejam fazendo nas melhores das intenções no sentido profilático”, disse Antônio Carlos Bilo, do Conselho Regional de Medicina (MS).

Que vergonha!, CRM. O Conselho deveria sim ver problemas na medida, visto que se trata de um tratamento ineficaz (ver links acima). E é ainda mais lastimável que a homeopatia seja uma especialidade reconhecida. Eu esperava que o órgão regulador da atividade médica no Brasil fizesse um trabalho mais sério de separar o joio do trigo com relação a tratamentos que funcionam e tratamentos que são apenas enganação.

Quanto a eles estarem oferecendo a “prevenção homeopática” na melhor das intenções, disso eu não tenho dúvidas. Mas precisamos algo mais do que boas intenções, como tratamento e prevenção de verdade. Seria bom se pudéssemos curar (ou prevenir) câncer, AIDS, tuberculose, etc., com “boas intenções”, mas infelizmente essa não é a realidade.

Os infectologistas são mais cautelosos. “A gente tenta trabalhar em cima de literatura científica, as coisas que comprovadamente são eficazes, que já têm estudos em cima disso. E eu como infectologista desconheço essa questão de estudo, eficácia”, disse a infectologista Andrea Lindemberg.

Não me surpreende que desconheça, visto que ela não existe. Existem sim alguns estudos que supostamente comprovaram a eficácia da homeopatia, mas eles não resistem a uma análise rigorosa: as amostras são pequenas, não foi usado o método duplo-cego corretamente, a avaliação dos efeitos é feita subjetivamente, etc.

Fiquei decepcionado com a posição “morna” da infectologista. Mas talvez não seja culpa dela: o repórter pode ter entrevistado várias pessoas, algumas mais veementes, mas escolhida essa médica justamente por ela ser mais cautelosa. Ou a edição pode ter abrandado as afirmações que ela fez.

O secretário de Saúde de Campo Grande, Luiz Henrique Mandetta, disse: “a gente imagina sim funcionar como um elemento de estabilização do humor, como um elemento de calma”.

“Estabilização de humor”???? WTF??? Em que século esse cara vive? Será que ele vai sugerir sanguessugas para fazer uma sangria e eliminar maus fluídos?

É realmente preocupante que alguém na posição de Secretário de Saúde faça afirmações como essa.

O presidente da Sociedade Brasileira de Infectologia, Juvêncio Furtado, disse que desconhece estudos que comprovem a eficácia de medicamentos homeopáticos no tratamento da nova gripe.

Aqui valem os mesmos comentários feitos com relação à afirmação da infectologista, mesmo por que ele falou a mesma coisa.

O Ministério da Saúde reconhece o valor terapêutico da homeopatia em alguns tratamentos pelo SUS. Mas, no caso da nova gripe, o ministério afirmou que nenhum medicamento homeopático está indicado.

Que vergonha!, Ministério da Saúde. Assim como o CRM, eu esperava mais de vocês com relação à filtragem de terapias cientificamente comprovadas das pseudociências. E o pior é que estão usando dinheiro público para financiar a pseudomedicina e charalatões que a praticam.

A Secretaria de Saúde de Campo Grande já tinha usado a homeopatia durante o surto de dengue no verão de 2007.

Coincidência ou não, em 2007 o estado campeão da dengue foi Mato Grosso do Sul, com 74 mil casos no total, ou 3188 casos por 100 mil habitantes, conforme a Sociedade Brasileira de Infectologia.

divisor

Em resumo, temos uma atuação vergonhosa da Secretaria de Saúde de Campo Grande, suportada pela política de boa vizinhança para com os colegas homeopatas do CRM e do Ministério da Saúde. E, para completar o quadrilátero da vergonha, que vergonha!, Central Globo de Jornalismo, não por reportar a atitude irresponsável das autoridades de Campo Grande (é dever do jornalismo fazer isso), mas por fazê-lo de uma maneira que as pessoas possam achar que é um tratamento válido. Deveriam ter mostrado muito mais o lado científico, enfatizando que não há base científica que suporte a homeopatia, que estudos não encontraram indícios de que ela funcione melhor que um placebo, e que há riscos em utilizar a homeopatia ao invés da medicina baseada na ciência.

Um outro blog foi mais rápido e já comentou sobre o assunto: Cultura Científica.

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