(Outra) carta à Gazeta do Povo
(E sobre o mesmo assunto.)
Tão logo saiu a notícia sobre o parlamento briânico e a homeopatia, foi publicada uma reportagem sobre o assunto no jornal Gazeta do Povo. Desta vez a reportagem não estava ruim, ela comentou sobre o estudo feito pela comissão do parlamento e depois comentou que (como era de se esperar) os defensores da prática contestaram tal estudo, embora sem oferecer algo para suportar tal posição.
A título de “interatividade”, a reportagem pediu aos leitores que emitissem opiniões. Alguns fizeram, ao longo dos dias subsequentes algumas cartas foram publicadas. Eu também decidi então mandar a minha, que reproduzo abaixo:
Desde o pedido de comentários de leitores a respeito da homeopatia, suscitado pela notícia de que parlamentares britânicos propuseram que o sistema público de saúde não mais pague por “tratamentos” homeopáticos que não funcionam, uma série de cartas foram publicadas neste espaço defendendo a prática.
A maioria delas segue o mesmo padrão: “Eu sofria de <insira uma doença aqui>. Não conseguia ser curado até que fui a um homeopata. Depois disso, fiquei completamente curado.” Às vezes temos elementos que tornam a situação quase boa demais para ser verdade como “depois de uma única dose” ou “em poucos dias”.
Não é meu objetivo desmerecer a experiência de ninguém, mas esses relatos pessoais não têm valor na hora de avaliar se a homeopatia funciona ou não. Embora a situação indique que a homeopatia foi responsável pela cura, há uma série de outras variáveis envolvidas que podem ter influenciado o resultado final. É raro, mas às vezes doenças desaparecem sozinhas, ou a pessoa pode ter mudado algum hábito que fez com que as crises não fossem mais deflagradas, ou pode ter havido uma mudança na dieta que também influenciou o comportamento da doença, etc.
Para confirmar ou não a eficiência de um tratamento, é preciso fazer um estudo que se preocupe ao máximo em eliminar essas variáveis para que a única variável seja o uso do tratamento ou não. Em estudos desse tipo, verificou-se que não houve diferença entre um “remédio” homeopático e um placebo.
Também foi mencionado que “a homeopatia funciona em animais” e que “animais são imunes ao efeito placebo”, logo a homeopatia tem que funcionar. Essa é outra noção errada que vem sendo usada há muito tempo por defensores desta prática. Em primeiro lugar, também aqui são necessários estudos controlados. Simplesmente dizer que “meu cão foi tratado com homeopatia e ficou curado” não tem valor pelos mesmos motivos explicados acima. Em segundo lugar, é difícil medir avaliar objetivamente como os animais estão se sentido — talvez a melhora não seja tão grande, mas o dono ou o veterinário percebam, involuntariamente, uma suposta melhora maior do que a real melhora sofrida pelo animal. E em terceiro lugar, como Pavlov demonstrou, animais podem ser condicionados. E o condicionamento é um dos elementos do efeito placebo.
Para mais sobre estudos a respeito da homeopatia, vejam os posts anteriores. Sobre o problema com relatos pessoais, recomendo este vídeo. E eis alguns links sobre homeopatia e efeito placebo em animais.
Esta carta não foi publicada.


