Antigos remédios e a homeopatia

Um dos leitores desse site me mandou por e-mail uma lista de antigos remédios que causam espanto hoje em dia. A maioria são produtos feitos com cocaína, heroína e similares. (A lista também circula pelos blogs da internet, por exemplo aqui.)

Não consegui achar muitas informações sobre os produtos específicos, mas é bastante plausível que eles (ou outros parecidos) tenham existido. A cocaína era considerada um medicamento, e originalmente a Coca-Cola (feita de folhas de coca, daí o nome) continha uma pequena quantidade da droga.

Por outro lado, os “remédios” homeopáticos são basicamente os mesmos desde que foram inventados em 1796. E não digo isso pois “remédios” homeopáticos são e sempre foram apenas água, mas porque, mesmo segundo os conceitos loucos dos homeopatas, eles não mudaram desde que foram inventados. São feitos do mesmo jeito, e com as mesmas substâncias. Alguns novos componentes devem ter sido adicionadas ao repertório, mas não se fala de substâncias que na verdade podiam ser perigosas e foram descontinuadas, ou que não eram tão eficientes e foram substituídas por outras melhores, ou melhorias no processo de fabricação, etc. Basicamente a homeopatia nada mudou em 200 anos.

Por que isso? Por que homeopatia não é ciência. A ciência é um processo, e não um conjunto de ideias. Ela é falível e mutável, e está em constante desenvolvimento e evolução. Às vezes descobre-se que substâncias podem ser perigosas, que os riscos não compensam os benefícios (como aconteceu com a talidomida e a cocaína), ou novos remédios ou procedimentos são descobertos que se mostram melhores que os anteriores, e estes são naturalmente substituídos pelos mais novos. Ao contrário do que ocorre com as pseudomedicinas, imutáveis e estagnadas.

Algo que é imutável, não evolui, mantém-se sempre igual às tradições, não é necessariamente algo pseudocientífico. Mas ao nos depararmos com esta característica devemos elevar o nosso nível de alerta, e se combinada com outros comportamentos típicos das afirmações pseudocientíficas, então provavelmente estamos lidando com alguma bobagem sem nenhum fundamento. “Se ele parece com um pato, nada como um pato e grasna como um pato, então provavelmente é um pato.”

World Health Organization acerta com relação à homeopatia

Depois da vergonhosa (e perigosa) atuação das autoridades sanitárias brasileiras (tanto o Conselho Regional de Medicina quanto o Ministério da Saúde reconhecem a homeopatia como um tratamento válido), finalmente alguma organização relacionada à saúde acertou ao dizer que a homeopatia não é uma cura ou tratamento.

Trata-se da World Health Organization (WHO), que é a autoridade diretora e coordenadora para saúde da ONU. Como relata a BBC, foi emitido um comunicado claro e inequívoco que condena o uso da homeopatia como tratamento para tuberculose, diarreia, malária e outras condições:

Dr Mario Raviglione, director of the Stop TB department at the WHO, said: “Our evidence-based WHO TB treatment/management guidelines, as well as the International Standards of Tuberculosis Care do not recommend use of homeopathy.”

The doctors had also complained that homeopathy was being promoted as a treatment for diarrhoea in children.

But a spokesman for the WHO department of child and adolescent health and development said: “We have found no evidence to date that homeopathy would bring any benefit.

“Homeopathy does not focus on the treatment and prevention of dehydration – in total contradiction with the scientific basis and our recommendations for the management of diarrhoea.”

Dr Nick Beeching, a specialist in infectious diseases at the Royal Liverpool University Hospital, said: “Infections such as malaria, HIV and tuberculosis all have a high mortality rate but can usually be controlled or cured by a variety of proven treatments, for which there is ample experience and scientific trial data.

“There is no objective evidence that homeopathy has any effect on these infections, and I think it is irresponsible for a healthcare worker to promote the use of homeopathy in place of proven treatment for any life-threatening illness.”

Via Depleted Cranium.

Lavar as mãos é coisa do passado: Prevenções bizarras (e ineficazes) para a gripe suína

É fácil rir de ideias absurdas para combater a gripe suína quando elas estão longe. Como os rabinos que sobrevoaram Israel cantando e soprando trombetas para impedir que o vírus se espalhe (!!!). Veja o vídeo para rir, mas leia também alguns comentários sérios.

Mas, de repente, as coisas não são mais tão engraçadas quando acontecem aqui. Como é o caso de uma infeliz reportagem do Jornal Nacional exibida dia 20 de agosto.

Em resumo, a Secretaria Municipal de Saúde de Campo Grande pretende evitar a gripe com água. Mas não uma água qualquer, água rotulada “remédio homeopático”, pois assim ela obtém poderes sobrenaturais. Abaixo a reportagem completa e comentários meus.

O debate sobre a melhor forma de se proteger contra a gripe suína ganhou mais uma polêmica. De Campo Grande, a repórter Cláudia Gaigher mostra que o motivo foi uma decisão da Secretaria Municipal de Saúde.

Não vou negar que seja um tanto quanto polêmico, mas não deveria ser. Polêmico é algo que gera alguma discussão, mas no caso de homeopatia, já foi confirmado que ela não funciona. O que não é de surpreender, visto que os “remédios homeopáticos” são apenas água. Então não é uma questão de discussão, é algo que não funciona e que não devia sequer ser considerado.

O medicamento já usado na prevenção da gripe comum.

Já que foi usado, poderiam ter falado algo sobre os resultados – se é que fizeram um estudo rigoroso dos resultados, ao invés de se basear em coisas subjetivas como depoimentos de pacientes que dizem que se sentiram melhores alguns dias depois de tomar o “remédio”. Mas duvido que tenham feito tal análise.

“Ele é feito a partir do próprio vírus influenza, não especificamente deste vírus influenza que está aqui agora. Mas de várias cepas. Ele foi diluído e dinamizado 200 vezes. O que significa que neste medicamento já não existe nem uma partícula do vírus”, disse a farmacêutica Ana Paula Zandavalli.

Essa é a única parte da reportagem que presta para alguma coisa. A descrição é correta, mas muito breve. Para que não sabe como a homeopatia é feita, isso não ajuda muito a perceber que os métodos usados simplesmente não fazem sentido. Além disso, o local onde foi apresentado o lado científico na reportagem não ajuda, visto que logo em seguida autoridades falam das supostas virtudes desse “medicamento” que não contém nenhuma partícula do vírus.

Um médico homeopata explica como o remédio pode agir no organismo. “A gente espera que as pessoas que vão desenvolver, desenvolvam os sintomas mais leves e que diminuam os índices de complicações”, disse o médico homeopata Luiz Darcy Siqueira.

Não, o “médico” homeopata não explica como o remédio pode agir no organismo. Ele explica o que se deseja que o “remédio” faça, mas uma explicação de como o remédio age seria algo muito mais técnico, como essa descrição do mecanismo de ação da Aspirina. Mas, como em outras pseudociências, os defensores da homeopatia não são capazes de propor um modelo plausível de funcionamento, e usam no máximo de termos vagos como “memória da água” ou “lei dos semelhantes”.

A prefeitura vai distribuir 400 mil doses em postos de saúde e escolas municipais em Campo Grande. Segundo as autoridades de saúde, essa é mais uma medida preventiva para fortalecer o sistema imunológico da população, não é a cura da gripe A.

“Não se trata de vacina. É uma prevenção homeopática, mais um cuidado do nosso município prevenindo a infecção em muitas pessoas”, explicou Rita de Cássia Lourenço, da Sociedade de Homeopatia (MS).

Que vergonha!, prefeitura. Mesmo com o reconhecimento de que é só algo para “fortalecer o sistema imunológico”, ainda assim é uma medida ineficaz que traz falsas esperanças.

O Conselho Regional de Medicina não vê problemas na medida. “Não faz parte do manejo clínico da vigilância epidemiológica da influenza, do H1N1, mas se for orientação da homeopatia, que é uma especialidade reconhecida pelo Conselho Federal de Medicina, acreditamos que estejam fazendo nas melhores das intenções no sentido profilático”, disse Antônio Carlos Bilo, do Conselho Regional de Medicina (MS).

Que vergonha!, CRM. O Conselho deveria sim ver problemas na medida, visto que se trata de um tratamento ineficaz (ver links acima). E é ainda mais lastimável que a homeopatia seja uma especialidade reconhecida. Eu esperava que o órgão regulador da atividade médica no Brasil fizesse um trabalho mais sério de separar o joio do trigo com relação a tratamentos que funcionam e tratamentos que são apenas enganação.

Quanto a eles estarem oferecendo a “prevenção homeopática” na melhor das intenções, disso eu não tenho dúvidas. Mas precisamos algo mais do que boas intenções, como tratamento e prevenção de verdade. Seria bom se pudéssemos curar (ou prevenir) câncer, AIDS, tuberculose, etc., com “boas intenções”, mas infelizmente essa não é a realidade.

Os infectologistas são mais cautelosos. “A gente tenta trabalhar em cima de literatura científica, as coisas que comprovadamente são eficazes, que já têm estudos em cima disso. E eu como infectologista desconheço essa questão de estudo, eficácia”, disse a infectologista Andrea Lindemberg.

Não me surpreende que desconheça, visto que ela não existe. Existem sim alguns estudos que supostamente comprovaram a eficácia da homeopatia, mas eles não resistem a uma análise rigorosa: as amostras são pequenas, não foi usado o método duplo-cego corretamente, a avaliação dos efeitos é feita subjetivamente, etc.

Fiquei decepcionado com a posição “morna” da infectologista. Mas talvez não seja culpa dela: o repórter pode ter entrevistado várias pessoas, algumas mais veementes, mas escolhida essa médica justamente por ela ser mais cautelosa. Ou a edição pode ter abrandado as afirmações que ela fez.

O secretário de Saúde de Campo Grande, Luiz Henrique Mandetta, disse: “a gente imagina sim funcionar como um elemento de estabilização do humor, como um elemento de calma”.

“Estabilização de humor”???? WTF??? Em que século esse cara vive? Será que ele vai sugerir sanguessugas para fazer uma sangria e eliminar maus fluídos?

É realmente preocupante que alguém na posição de Secretário de Saúde faça afirmações como essa.

O presidente da Sociedade Brasileira de Infectologia, Juvêncio Furtado, disse que desconhece estudos que comprovem a eficácia de medicamentos homeopáticos no tratamento da nova gripe.

Aqui valem os mesmos comentários feitos com relação à afirmação da infectologista, mesmo por que ele falou a mesma coisa.

O Ministério da Saúde reconhece o valor terapêutico da homeopatia em alguns tratamentos pelo SUS. Mas, no caso da nova gripe, o ministério afirmou que nenhum medicamento homeopático está indicado.

Que vergonha!, Ministério da Saúde. Assim como o CRM, eu esperava mais de vocês com relação à filtragem de terapias cientificamente comprovadas das pseudociências. E o pior é que estão usando dinheiro público para financiar a pseudomedicina e charalatões que a praticam.

A Secretaria de Saúde de Campo Grande já tinha usado a homeopatia durante o surto de dengue no verão de 2007.

Coincidência ou não, em 2007 o estado campeão da dengue foi Mato Grosso do Sul, com 74 mil casos no total, ou 3188 casos por 100 mil habitantes, conforme a Sociedade Brasileira de Infectologia.

divisor

Em resumo, temos uma atuação vergonhosa da Secretaria de Saúde de Campo Grande, suportada pela política de boa vizinhança para com os colegas homeopatas do CRM e do Ministério da Saúde. E, para completar o quadrilátero da vergonha, que vergonha!, Central Globo de Jornalismo, não por reportar a atitude irresponsável das autoridades de Campo Grande (é dever do jornalismo fazer isso), mas por fazê-lo de uma maneira que as pessoas possam achar que é um tratamento válido. Deveriam ter mostrado muito mais o lado científico, enfatizando que não há base científica que suporte a homeopatia, que estudos não encontraram indícios de que ela funcione melhor que um placebo, e que há riscos em utilizar a homeopatia ao invés da medicina baseada na ciência.

Um outro blog foi mais rápido e já comentou sobre o assunto: Cultura Científica.

Ciência e pseudociência

Achei no site dos Young Australian Skeptics uma tabela parecida com a seguir realçando algumas das principais diferenças entre ciência e pseudociência e similares:

Ciência Pseudociência
Muda com evidências novas Idéias imutáveis
Considera todas as novas descobertas Considera só o que convém
Revisada/criticada (sem dó) por outros cientistas Sem revisão
Aberta a críticas Vê críticas como uma conspiração
Resultados podem ser reproduzidos Resultados não podem sempre ser reproduzidos
Limitada, e sabe disso Diz ter uma utilidade praticamente ilimitada
Rigor nos experimentos e medidas Experimentos e medidas tendenciosos

Naturalmente isso não é tudo, mas é um bom resumo.

Para uma explicação bem mais detalha, este artigo do Quackwatch é uma excelente leitura.

Richard Wiseman de novo… sobre astrologia

Há não muito tempo comentei sobre uma experiência conduzida pelo Richard Wiseman em que ele não encontrou nenhum indício da existência da “visão remota”.

Agora (na verdade já faz quase um mês, estou atrasado) ele fez uma outra experiência, agora sobre astrologia.

Ele pegou o horóscopo de um signo, e postou em seu blog, pedindo aos leitores que identificassem o quanto eles achavam que as afirmações naquele horóscopo correspondiam às suas personalidades. A ideia é que se a astrologia funcionasse, então as pessoas do signo para o qual o horóscopo foi feito deveriam ter um grau de identificação maior do que qualquer outro signo.

Infelizmente, não foi o que aconteceu. O signo das pessoas que mais se identificaram com o horóscopo foi capricórnio, com uma média de 4,1 pontos (numa escala até 10). Mas ele havia escolido o horóscopo para libra, que teve uma média de identificação de 2,7, sendo apenas o quarto signo em termos de identificação.

É importante termos em mente que isso não tem um valor científico e não pode provar que a astrologia não funciona. Mas serve sim como um indício apontando para tal conclusão. Juntando isso ao fato que as ideias nas quais a astrologia se baseia não se encaixam de maneira alguma com o que sabemos sobre as leis da física e que os astrólogos sequer conseguem propor uma explicação viável sobre como a astrologia funcionaria, e também observando que os horóscopos tendem a ser cheios de afirmações de Forer, e que astrólogos muitas vezes utilizam técnicas clássicas da leitura fria quando lidam diretamente com clientes, e mais tantos outros indícios, podemos afirmar, com tanta convicção quanto possível, que astrologia não passa de um monte de bobagem.

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