Exemplo de administração pública

Segundo a revista Veja, as prefeituras do Rio e de São Paulo têm um “convênio” com uma fundação que se diz capaz de… controlar o clima! Eis alguns trechos da reportagem:

[...] [A]s prefeituras das duas maiores cidades brasileiras, São Paulo e Rio de Janeiro, assinaram convênios com a Fundação Cacique Cobra Coral, que se anuncia como tendo poder de interferir nos fenômenos climáticos através de uma entidade espiritual?

A possibilidade da existência de mistérios entre o céu e a terra não é algo assim tão distante das convicções de milhões de brasileiros. Mas daí a celebrar convênios oficiais com espíritos vai um longo caminho. A surpresa maior é as prefeituras estarem plenamente satisfeitas com os resultados. No Rio de Janeiro, o convênio do outro mundo começou em 2002, na gestão do prefeito Cesar Maia, um tipo meio excêntrico, crédulo mas bom administrador. Ele atribui sem rodeios à atuação do espírito do cacique o fato de o Rio de Janeiro não ter sofrido nenhuma tragédia climática durante seus dois últimos mandatos de prefeito. Cesar Maia disparou um e-mail para a prefeitura de São Paulo, que ainda estava sob o comando do atual governador José Serra, recomendando ao colega que buscasse a mesma proteção espiritual para a cidade. Coube ao vereador paulistano Ricardo Teixeira, então secretário adjunto de Coordenação das Subprefeituras, cuidar da assinatura da parceria. Lembra ele: “Aceitamos a sugestão do Cesar Maia e, depois de assinar o convênio, durante o ano e meio que passei na administração de São Paulo não registramos nem uma morte sequer que possa ser debitada às chuvas”.

A metafísica ganhou também a adesão dos sucessores de Cesar Maia e José Serra. Em São Paulo, a administração do prefeito Gilberto Kassab informou que o convênio, assinado por tempo indeterminado e sem custo para os cofres da cidade, não foi revogado. No Rio de Janeiro, o secretário municipal de Obras, Luiz Antonio Guaraná, diz que pensou em dispensar os serviços do cacique. Bastou que caíssem as primeiras chuvas do verão no começo do ano para que ele se agarrasse às mesmas crendices da administração anterior. O convênio foi prontamente restabelecido. “Brinquei com o Guaraná que, entre ele e a fundação, eu ficaria com a fundação”, diz o prefeito Eduardo Paes, justificando a prorrogação do contrato de serviços do além. Paes já encomendou à fundação uma nova “operação de alteração climática”. Ele quer um veranico, a súbita elevação passageira dos termômetros em pleno inverno, com que espera controlar o surto da gripe suína, cuja propagação se beneficia das baixas temperaturas. O prefeito Paes ficou convertidíssimo depois de atribuir a uma operação do cacique o sucesso da visita do Comitê Olímpico Internacional, no mês de maio, para avaliar a candidatura do Rio de Janeiro aos jogos de 2016. Diz Paes: “Choveu durante as sabatinas no hotel, mas o sol se abriu na hora das visitas aos locais das provas. Até ventou na apresentação das instalações da vela. As condições climáticas foram perfeitas”.

[...]

Segundo consta, esses “convênios” não trazem custo aos cofres públicos (ainda bem!), mas isso não justifica o seu uso. Qual será o próximo passo? Médiuns para falar com vítimas de assassinato e descobrir a identidade dos criminosos? Avaliação do mapa astral como etapa nos concursos públicos? Consulta a videntes para saber as previsões para o futuro e assim tomar decisões importantes com relação à administração pública?

2 comentários

  1. Juliano says:

    Mas os chineses conseguem controlar o clima, jogando raios de nitrato de prata nas nuvens e limpando o céu para a abertura das Olimpíadas.

  2. Carlos Eduardo says:

    Podiam contratar 1 bilhão de videntes…daí certamente várias previsões de realizariam

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