Agradecendo a deus pela vida

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O ex-deputado Fernando Carli Filho espalhou esses outdoors pela cidade de Guarapuava, Paraná. Para quem não lembra, esse deputado se envolveu num acidente de trânsito há dois meses que resultou na morte de duas pessoas. Foi confirmado que ele havia bebido antes e provavelmente ele estava em alta velocidade, mas não é sobre isso que quero falar.

Não temos como saber até que ponto o ex-deputado é uma pessoa de fé em deus e até que ponto isso é uma jogada de marketing para ele melhorar sua abalada imagem, mas esse agradecimento a deus me faz pensar em algumas perguntas, e ao meu ver são coisas que qualquer pessoa deveria pensar quando agradece a deus por escapar de alguma situação de perigo. Se isso vai alterar a fé delas não importa, mas é o tipo de coisa sobre a qual as pessoas deveriam pensar antes de sair apressadamente agradecendo um senhor invisível que moraria no céu.

Então deus resolveu salvar a vida do sr. Fernando Carli Filho. Muito bem. Mas se o objetivo de deus era que o sr. Fernando vivesse, por que sujeitá-lo a um acidente grave e a uma longa recuperação, que talvez até deixe sequelas? Se deus pode salvar a vida de uma pessoa que se feriu gravemente numa séria colisão, ele certamente poderia ter impedido tal colisão facilmente. Mas não o fez, deixou o sr. Fernando se envolver num acidente, se ferir gravemente, e depois que ele se recuperou (num hospital, com a mais moderna tecnologia e ciência disponíveis), o acidentado agradece deus por ter sobrevivido. Será que ele não devia se perguntar por que deus deixou que ele se envolvesse no acidente em primeiro lugar?

Muitas pessoas vão responder a isso dizendo coisas como o acidente foi uma provação para testar a fé do sr. Fernando, ou para que ele aprenda uma lição, ou que deus não interferiu na condução do sr. Fernando pois o livre arbítrio lhe permite a decisão de dirigir ou não de maneira perigosa, etc. Isso é evitar a pergunta; nenhuma dessas e outras respostas similares responde satisfatoriamente a questão. Mas, mais importante, ainda que esse seja o motivo, isso não corresponde com a visão que os crentes em deus passam dele. Eles afirmam que deus é bom, que é benevolente, caridoso, e diversas outras características positivas. Mas será que alguém que assiste passivamente a uma pessoa por em risco a sua vida e de outras pessoas para só depois interferir deixando-a viva para que essa pessoa aprenda alguma coisa pode ser considerada boa? Na minha definição de “boa” certamente não, mas talvez o conceito (e outros correlatos) variem de pessoa a pessoa.

Outra questão é quanto aos dois jovens que estavam no outro carro envolvido no acidente, que morreram. Por que deus não os salvou assim como fez com o sr. Fernando Carli Filho? Será que eles eram pessoas más? Será que eles fizeram algo errado os olhos de deus? Será que não eram dignos de salvação? Por que será que a “benevolência” de deus não chegou a eles?

Não temos como responder a essas perguntas. Mas isso leva a ainda outra dúvida, que nada tem a ver com religião: será que não passou pela cabeça de quem fez o outdoor que talvez não fosse de melhor tom colocar outdoors agradecendo por estar vivo (independente do motivo disso) enquanto outras pessoas morreram no acidente? Ainda mais com a suspeita de que o acidente foi causado pelo sr. Fernando Carli Filho?

3 comentários

  1. Juliano says:

    Talvez o publicitário que concebeu a frase tenha pensado que, considerando alguém que ache que nosso universo não surgiu do nada, justo seria sempre nutrir algum sentimento de gratidão pela inteligência que o concebeu. Contudo, só depois de cometer um crime doloso e ver a própria vida em perigo é que algumas pessoas passariam a entender dessa forma, resultando que o criminoso não seria uma pessoa de todo malvada.

  2. Carlos Eduardo says:

    “Rezar é falta de fé. Deus sabe bem o que faz.”

    • Esse negócio de rezar é realmente outra coisa complicada. Certamente um Deus onisciente não precisaria que as pessoas rezassem dizendo o que querem. Mas, curiosamente, não é o que a Igreja prega.

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