Alimentos orgânicos não são melhores

Um estudo feito na Inglaterra não achou nada que indicasse que os alimentos orgânicos sejam melhores que os outros, diz a Reuters. As diferenças encontradas entre os dois tipos de alimentos foram mínimas e não são suficientes para fazer qualquer diferença à saúde. A única diferença mesmo é o preço, bem mais caro para os orgânicos.

Produtores de produtos orgânicos questionaram o estudo, naturalmente.

(Informação obtida do Depleted Cranium.)

Exemplo de administração pública

Segundo a revista Veja, as prefeituras do Rio e de São Paulo têm um “convênio” com uma fundação que se diz capaz de… controlar o clima! Eis alguns trechos da reportagem:

[...] [A]s prefeituras das duas maiores cidades brasileiras, São Paulo e Rio de Janeiro, assinaram convênios com a Fundação Cacique Cobra Coral, que se anuncia como tendo poder de interferir nos fenômenos climáticos através de uma entidade espiritual?

A possibilidade da existência de mistérios entre o céu e a terra não é algo assim tão distante das convicções de milhões de brasileiros. Mas daí a celebrar convênios oficiais com espíritos vai um longo caminho. A surpresa maior é as prefeituras estarem plenamente satisfeitas com os resultados. No Rio de Janeiro, o convênio do outro mundo começou em 2002, na gestão do prefeito Cesar Maia, um tipo meio excêntrico, crédulo mas bom administrador. Ele atribui sem rodeios à atuação do espírito do cacique o fato de o Rio de Janeiro não ter sofrido nenhuma tragédia climática durante seus dois últimos mandatos de prefeito. Cesar Maia disparou um e-mail para a prefeitura de São Paulo, que ainda estava sob o comando do atual governador José Serra, recomendando ao colega que buscasse a mesma proteção espiritual para a cidade. Coube ao vereador paulistano Ricardo Teixeira, então secretário adjunto de Coordenação das Subprefeituras, cuidar da assinatura da parceria. Lembra ele: “Aceitamos a sugestão do Cesar Maia e, depois de assinar o convênio, durante o ano e meio que passei na administração de São Paulo não registramos nem uma morte sequer que possa ser debitada às chuvas”.

A metafísica ganhou também a adesão dos sucessores de Cesar Maia e José Serra. Em São Paulo, a administração do prefeito Gilberto Kassab informou que o convênio, assinado por tempo indeterminado e sem custo para os cofres da cidade, não foi revogado. No Rio de Janeiro, o secretário municipal de Obras, Luiz Antonio Guaraná, diz que pensou em dispensar os serviços do cacique. Bastou que caíssem as primeiras chuvas do verão no começo do ano para que ele se agarrasse às mesmas crendices da administração anterior. O convênio foi prontamente restabelecido. “Brinquei com o Guaraná que, entre ele e a fundação, eu ficaria com a fundação”, diz o prefeito Eduardo Paes, justificando a prorrogação do contrato de serviços do além. Paes já encomendou à fundação uma nova “operação de alteração climática”. Ele quer um veranico, a súbita elevação passageira dos termômetros em pleno inverno, com que espera controlar o surto da gripe suína, cuja propagação se beneficia das baixas temperaturas. O prefeito Paes ficou convertidíssimo depois de atribuir a uma operação do cacique o sucesso da visita do Comitê Olímpico Internacional, no mês de maio, para avaliar a candidatura do Rio de Janeiro aos jogos de 2016. Diz Paes: “Choveu durante as sabatinas no hotel, mas o sol se abriu na hora das visitas aos locais das provas. Até ventou na apresentação das instalações da vela. As condições climáticas foram perfeitas”.

[...]

Segundo consta, esses “convênios” não trazem custo aos cofres públicos (ainda bem!), mas isso não justifica o seu uso. Qual será o próximo passo? Médiuns para falar com vítimas de assassinato e descobrir a identidade dos criminosos? Avaliação do mapa astral como etapa nos concursos públicos? Consulta a videntes para saber as previsões para o futuro e assim tomar decisões importantes com relação à administração pública?

Agradecendo a deus pela vida

outdoor_carli_filho

O ex-deputado Fernando Carli Filho espalhou esses outdoors pela cidade de Guarapuava, Paraná. Para quem não lembra, esse deputado se envolveu num acidente de trânsito há dois meses que resultou na morte de duas pessoas. Foi confirmado que ele havia bebido antes e provavelmente ele estava em alta velocidade, mas não é sobre isso que quero falar.

Não temos como saber até que ponto o ex-deputado é uma pessoa de fé em deus e até que ponto isso é uma jogada de marketing para ele melhorar sua abalada imagem, mas esse agradecimento a deus me faz pensar em algumas perguntas, e ao meu ver são coisas que qualquer pessoa deveria pensar quando agradece a deus por escapar de alguma situação de perigo. Se isso vai alterar a fé delas não importa, mas é o tipo de coisa sobre a qual as pessoas deveriam pensar antes de sair apressadamente agradecendo um senhor invisível que moraria no céu.

Então deus resolveu salvar a vida do sr. Fernando Carli Filho. Muito bem. Mas se o objetivo de deus era que o sr. Fernando vivesse, por que sujeitá-lo a um acidente grave e a uma longa recuperação, que talvez até deixe sequelas? Se deus pode salvar a vida de uma pessoa que se feriu gravemente numa séria colisão, ele certamente poderia ter impedido tal colisão facilmente. Mas não o fez, deixou o sr. Fernando se envolver num acidente, se ferir gravemente, e depois que ele se recuperou (num hospital, com a mais moderna tecnologia e ciência disponíveis), o acidentado agradece deus por ter sobrevivido. Será que ele não devia se perguntar por que deus deixou que ele se envolvesse no acidente em primeiro lugar?

Muitas pessoas vão responder a isso dizendo coisas como o acidente foi uma provação para testar a fé do sr. Fernando, ou para que ele aprenda uma lição, ou que deus não interferiu na condução do sr. Fernando pois o livre arbítrio lhe permite a decisão de dirigir ou não de maneira perigosa, etc. Isso é evitar a pergunta; nenhuma dessas e outras respostas similares responde satisfatoriamente a questão. Mas, mais importante, ainda que esse seja o motivo, isso não corresponde com a visão que os crentes em deus passam dele. Eles afirmam que deus é bom, que é benevolente, caridoso, e diversas outras características positivas. Mas será que alguém que assiste passivamente a uma pessoa por em risco a sua vida e de outras pessoas para só depois interferir deixando-a viva para que essa pessoa aprenda alguma coisa pode ser considerada boa? Na minha definição de “boa” certamente não, mas talvez o conceito (e outros correlatos) variem de pessoa a pessoa.

Outra questão é quanto aos dois jovens que estavam no outro carro envolvido no acidente, que morreram. Por que deus não os salvou assim como fez com o sr. Fernando Carli Filho? Será que eles eram pessoas más? Será que eles fizeram algo errado os olhos de deus? Será que não eram dignos de salvação? Por que será que a “benevolência” de deus não chegou a eles?

Não temos como responder a essas perguntas. Mas isso leva a ainda outra dúvida, que nada tem a ver com religião: será que não passou pela cabeça de quem fez o outdoor que talvez não fosse de melhor tom colocar outdoors agradecendo por estar vivo (independente do motivo disso) enquanto outras pessoas morreram no acidente? Ainda mais com a suspeita de que o acidente foi causado pelo sr. Fernando Carli Filho?

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