Pode-se acreditar no que quiser?
Basicamente, sim, a escolha é de cada um. Porém, é preciso ter algumas coisas em mente:
- Muitas coisas não são uma questão de acreditar ou de ter fé. Você até pode acreditar em algo para o qual toda a evidência aponta para o contrário, mas se você fizer isso, está agindo como um idiota, logo espere ser tratado como um. Você vai ser criticado, vai ser ridicularizado, e não adianta reclamar. Quanto mais comprovadamente falsa for a coisa em que você decidir acreditar, pior vai ser. Isso vale mesmo para coisas para as quais não se tem certeza. Mesmo nesse caso é sempre preferível fazer uma escolha informada com base no que já se sabe e nas probabilidades de cada hipótese ser verdadeira.
- Algumas “escolhas” podem ser perigosas. Nos EUA há uma moda atualmente em crer que vacinas não só não servem ao seu propósito de proteger as crianças das doenças como causam autismo. Isso cai no caso anterior, uma vez que nenhum estudo confirmou a afirmação desses imbecis. Pelo contrário, não foi constatada nenhuma relação entre vacinas e autismo. No entanto, o que pode acontecer quando se decide arbitrariamente acreditar em algo sem se basear em evidências é grave e perigoso. E as consequências estão sendo observadas, com o surgimento de epidemias de doenças que tinham apenas uns poucos casos por ano.
- É necessário ter consciência das limitações de sua crença, e tratá-la como tal. Se você insiste em rejeitar a evolução (que é um fato), tudo bem. Mas não tente justificar isso com argumentos pseudo-científicos. Outra tendência dos EUA é o “Design Inteligente”, que se define como uma “teoria científica” que afirma que a vida surgiu graças a um “designer” que a fez assim. Mas não há nada de ciência nisso. Não adianta tentar disfarçar crenças de ciência. Da mesma forma, não adianta tentar querer impor esse tipo de crença em outras pessoas, que é o que os criacionistasdefensores do design inteligente tentam fazer, tentando de todos os modos incluir essa teoria religiosa disfarçada nos currículos escolares, e limitar o ensino de ciência de verdade. Acreditar nessa idéia em si não é realmente errado (embora possa ser um tanto quanto estúpido), mas querer que ela tome o lugar de ciência de verdade, feita da maneira correta, é errado.
Este artigo dá a entender que a cada pessoa, em um momento específico da vida, é apresentada uma lista de crenças possíveis (tal qual um buffet de comidas) e ela escolhe conscientemente a que mais gostar para seguir cegamente daquele ponto em diante. E o autor compilou um manual para dummies que ensina a melhor forma de cada um escolher sua crença, como um psicólogo de teste vocacional ajuda a escolher a profissão. Interessante seria publicá-lo na forma de livro de auto-ajuda, poderia ser um sucesso entre os que chegam nesse dilema e acabam optando por uma mistura aleatória de crenças.
Há uma série de concepções equivocadas nesse seu comentário, vamos abordá-las por partes.
“cada pessoa, em um momento específico da vida, é apresentada uma lista de crenças possíveis (tal qual um buffet de comidas)”
Não é uma boa analogia. Mas de fato, somos constantemente (e não em apenas um determinado momento) confrontados com situações em que devemos analisar criticamente e basear nossas decisões nessa análise, e não em qualquer outra coisa.
“e ela escolhe conscientemente a que mais gostar”
A melhor maneira de fazer uma decisão é analisando os fatos, e não escolhendo “a que mais gostar”. Mas há pessoas que aparentemente não usam nenhum critério na hora das escolhas.
“para seguir cegamente daquele ponto em diante”
Se você segue algo cegamente, está agindo como um fanático religioso. Mesmo que fale o oposto de um fanático religioso. O que distingue um cético de um crente é que o cético pode mudar de opiniões: se surgirem evidências novas, ele vai analisar novamente a situação, e se necessário mudar algumas de suas opiniões a respeito do assunto. Já pessoas que acreditam cegamente em algo (como aqueles que acham que o Homem nunca pisou na Lua) nunca mudam sua opinião, mesmo inundados em evidência.
“E o autor compilou um manual para dummies que ensina a melhor forma de cada um escolher sua crença”
Não, não compilei, pois não existe tal coisa. E nem poderia existir, pois a partir do momento que se dá um conjunto fixo de regras a seguir, não se está estimulando as pessoas a pensar por si mesmas, e isso é o que é mais importante: pensar por si mesmo, e não simplesmente aceitar coisas prontas.
“Interessante seria publicá-lo na forma de livro de auto-ajuda”
Não, não seria. O que seria interessante seria ensinar as crianças desde pequenas, desde a escola a pensar criticamente (não a seguir uma receita pronta, mesmo por que ela não existe). Ensiná-las desde cedo a analisar criticamente as situações e fazer escolhas informadas.
Muita pretensão dizer no que uma pessoa pode ou não acreditar…
Óbvio que há crenças mais idiotas, mas em alguns casos, não se pode afirmar com certeza que ela é errada.
Vc citou o caso da Teoria da Evolução, dizendo que ela é um fato. Mas ela não é…ela é simplesmente uma teoria com fortes evidências e que, no momento, é o melhor que temos. A Ciência funciona assim…ela trabalha com verdades momentâneas. Se algo novo surge, mudam-se as teorias.
”Nenhuma soma de experiência pode provar que se tem razão, mas basta uma só experiência para mostrar que se está errado.”(Einstein)
O ponto do texto é justamente mostrar que não se deve impor algo como podendo acreditar ou não. Sua primeira frase não faz muito sentido.
Quanto à evolução, é um fato sim. Sabemos com tanta certeza quanto possível que ela existe e é responsável (pelo menos em parte) pelas formas de vida que temos hoje. Claro que não conhecemos todos os detalhes de como a vida surgiu ou evoluiu (e sempre que descobrimos mais coisas, outras dúvidas surgem), mas questionar a evolução como os criacionistas fazem, embora possível, é uma opção pior do que aceitá-la, simplesmente.
Ao chamar pessoas de idiotas e imbecis, vc além de estar se utilizando uma falácia ad hominem, também está impondo seu modo de pensar de maneira indireta.
Falácia ad hominem é usar qualidades (em particular qualidades negativas) da pessoa como argumento contra suas ideias. Eu posso ter feito o oposto, com base nas idéias (e consequências de defender essas ideais) atacar as pessoas. Pode não ser a melhor coisa a fazer, mas não é uma falácia ad hominem.
E certamente estou tentanto sugerir a maneira de pensar a outras pessoas. Nunca o que pensar, mas como pensar.
Outra pretensão… “tentando sugerir A maneira de pensar” e não “uma maneira de pensar”…
Não tem essa ênfase no que eu escrevi.
Para alguns leitores, esse post parece estar saindo como um tiro pela culatra, e, em vez de despertar o pensamento crítico a qualquer ideia axiomática, acaba reforçando o arcabouço argumentativo cimentado para defender sistemas cientificamente heterodoxos.
Eu prefiro acreditar na completude dos espaços de Banach de dimensão infinita, onde quase tudo se comporta de maneira bem definida, pouco se enxerga e tudo é divinamente belo! É ou não é?