Na Itália, a família de uma mulher em coma há 17 anos conseguiu na justiça o direito de desligar os aparelhos que a mantêm viva. Em outras palavras, a eutanásia, palavra que vem do grego e significa “boa morte”.
Como não poderia deixar de ser, ativistas, principalmente religiosos (sempre eles), fizeram os seus protestos sob a alegação de estarem “defendendo a vida”, tentando impedir o direito conquistado na justiça (depois de um longo tempo e inúmeras apelações).
Ao contrário da igualmente polêmica situação do aborto, neste caso há realmente a interrupção de uma vida. No entanto, ainda que com base em critérios puramente médicos ou biológicos a paciente esteja viva (afinal ela respira, seus órgãos funcionam, ainda que com o auxílio dos aparelhos, etc.), fazendo uma análise num nível mais alto, será que podemos considerar o estado vegetativo em que ela se encontra como “vida”? Sem consciência, sem poder fazer nada, e só permanecendo animada graças a aparelhos, será isso uma vida de verdade? Algo que valha a pena para ela e para as pessoas próximas a ela?
Naturalmente, nesse tipo de caso há um risco: será que ela pode acordar do coma algum dia? A probabilidade parece ser remota, mas não completamente descartada. Mas novamente precisamos de uma análise mais profunda: será que se acordasse ela poderia levar uma vida normal? Ou será que teria sequelas devido ao longo tempo em coma? E, mesmo que ela pudesse se recuperar, certamente ela não vai sair praticando artes maciais horas depois ou ter a recuperação quase instantânea como se vê em filmes: só com relação ao aspecto físico, será um longo tempo de fisioterapia por causa de anos deitada; e é bem possível que seja necessário algum tipo de reabilitação das funções cerebrais também. Sem falar do tempo que vai levar para a pessoa se acostumar com as mudanças mundo em 15, 20 anos em que a pessoa esteve em coma. E suponho que seria um grande impacto para alguém ver como as coisas mudaram.
Apesar de este risco existir, eu consigo entender o desejo dessa italiana de que fosse feita a eutanásia numa situação dessas. Eu ia querer o mesmo. Mas, infelizmente, enquanto a Itália deu um significativo passo adiante com essa decisão, o Brasil ainda engatinha com relação a esse tipo de discussão (e outras parecidas) graças principalmente a questões religiosas.
Porém há uma coisa que me intriga: por que a terminação da vida é feita cortando a alimentação? (No caso Terry Schiavo em 2005 foi feito da mesma forma.) Tudo bem que o paciente em coma não sente nada, então é uma maneira pacífica de se morrer, mas ainda assim é demorada, leva algumas semanas. Por que será que não é feito de uma maneira mais rápida e que seria indolor até mesmo para alguém consciente? Sem falar que no tempo necessário para a morte por inanição algum outro juiz pode resolver se intrometer no caso…