Como interpretar a bíblia?

Este post é um complemento ao post “A bíblia comentada”, para comentar uma questão que foi lançada em um comentário.

O leitor Carlos falou que não podemos interpretar a bíblia literalmente com os olhos de hoje, por se tratar de um livro muito antigo, então o que está escrito lá não pode ser analisado sob um panorama puramente atual. Isso é completamento correto.

No entanto, não é assim que a bíblia é geralmente interpretada, e sites como o já mencionado Skeptic’s Annotated Bible ou The Brick Testament (que é do mesmo autor) contribuem justamente para essa visão mais crítica e analítica da Bíblia, que é justamente o que é desejável. (Na verdade, precisamos dessa visão crítica em muitos outros aspectos, mas isso é outra história.)

A visão da Igreja, por exemplo, não é essa; a bíblia é a “palavra de deus em linguagem humana” e é “inerrável”; em nenhum momento sustenta que apenas partes dela (as partes boas) devem ser consideradas ou que algumas partes já não fazem mais sentido e devem ser desconsideradas. É verdade (felizmente!) que a Igreja não sai por aí defendendo que pratiquemos alguns ensinamentos de moral questionável da bíblia, como aquele de matar nossos inimigos ou apedrejar quem blasfema o nome do senhor, mas ela também não faz nenhum esforço para lançar uma “nova edição” da bíblia removendo as partes que são apenas curiosidades históricas de um tempo muito mais violento.

Além disso, e mais sério, é extremamente comum vermos pessoas dizendo que seu livro favorito é a bíblia, ou que é um livro cheio de bons exemplos, que é inspiracional, etc., mas nunca vi alguém fazendo a observação que isso só vale para algumas partes e que outras já não se aplicam mais nos dias de hoje e que devem ser desconsideradas. Talvez porque nem sequer saibam dessas partes que a Igreja prefere não comentar muito. Não sei como são as estatísticas aqui no Brasil (se alguém souber, deixe um comentário), mas pelo menos nos EUA poucos realmente lêem a bíblia, mas mesmo entre aqueles que já leram é difícil encontrar pessoas que tenham justamente essa visão de que nem tudo deve ser considerado da mesma forma.

3 comentários

  1. Sr. Juliano says:

    O que o leitor Carlos falou também parece fazer sentido se analisarmos que o Velho Testamento, muito mais antigo, contém partes bem mais estranhas que o Novo, o qual só é criticado no Skeptic por incongruências, mas não por ensejar a violência.

    Além disso acho que as pessoas em geral (exceto os judeus) lêem muito mais o novo testamento, Mateus, Salmos e tal, e por isso não entram tanto em contato com a baleia que engoliu o profeta.

  2. Carlos Eduardo Kania says:

    Para mim, a bíblia é uma carta de princípios, várias histórias simbólicas e não ordens a serem seguidas a ferro e fogo.
    Infelizmente a grande maioria dos religiosos não sabe as consequências de se parar o sol, como fez Eliseu, acho…e nem dos problemas gênicos causados pela endogamia incestuosa, caso viéssemos unicamente de 2 humanos originais (Adão e Eva).

    Uma parte da bíblia que gosto é do dilúvio, quando as águas baixaram e Noé pôde sair da arca. Para comemorar ele plantou uma vinha, se embebedou e ficou nu. Cão, um dos seus filhos entrou na tenda de Noé e o viu pelado.
    Eis que Noé se vira para ele e diz: “Maldito você que me viu nu.” Com isso, Cão e seus descendentes foram castigados duramente…

  3. “Para mim, a bíblia é uma carta de princípios, várias histórias simbólicas e não ordens a serem seguidas a ferro e fogo.”

    É uma boa maneira de ver a bíblia, apenas não é a visão oficial da Igreja, que embora não defenda castigar seus filhos se eles o virem nu, ainda defende alguns arcaísmos como não usar preservativos.

    “Eis que Noé se vira para ele e diz: ‘Maldito você que me viu nu.’ ”

    Belíssimo exemplo de relações familiares, um pai amaldiçoando o próprio filho.

    Sem falar da incoerência, afinal a culpa de ficar bêbado e nu foi do Noé, não do pimpolho.

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