Curta sobre numerologia

Supondo que a numerologia funcione, por que sempre que alguém troca o nome por razões numerológicas esta pessoa deixa o nome mais “complicado”? É comum termos notícias de alguém que duplicou uma letra, colocou um “h”, trocou um “i” por um “y”, etc., mas é muito raro (se é que já aconteceu) alguém tornar o nome mais simples ou comum, de Allinny virar um banal “Aline”, ou de “Addhrianny” virar “Adriane”, para citar alguns exemplos hipotéticos.

Estatisticamente, se a numerologia funcionasse, deveríamos esperar que em mais ou menos metade dos casos fosse necessário adicionar uma letra, ou trocar um “i” por “y”, por exemplo; mas na outra metade das vezes o contrário deveria acontecer: remover uma letra, ou trocar o “y” por “i”, etc.Ainda assim, vê-se quase exclusivamente o primeiro caso.

A causa da crise

Segundo uma reportagem¹ do jornal “Gazeta do Povo” (um dos maiores, senão o maior, do estado do Paraná), a causa da crise econômica que vem assolando o mundo (exceto o Brasil, segundo Lula) se deve “à passagem de Saturno por Virgem, que estava em trígono com Júpiter em Capricórnio e Urano em Peixes”. Nada de problemas com hipotecas nos EUA, nenhuma relação com alavancagem excessiva dos bancos, isso é tudo bobagem.

É até difícil de acreditar, mas é isso mesmo: um jornal de ampla circulação, sério, dedica um espaço razoável a uma “explicação alternativa” para a crise baseada numa pseudociência que afirma que a posição dos planetas no espaço pode afetar a vida e a personalidade das pessoas e, como vemos agora, até a economia, mas que nunca se deu ao trabalho de propor uma explicação sobre como essa influência é exercida.

O que virá em seguida? Uma coluna diária sobre o chupa-cabra? Uma série de reportagens no Jornal Nacional sobre o criacionismodesign inteligente? Um documentário sobre numerologia?


¹ De meia página², com direito a chamada na primeira página do jornal, e também num comercial na TV.

² Sendo que a outra meia página é dividida entre um anúncio e outra reportagem sobre astrologia.

Como interpretar a bíblia?

Este post é um complemento ao post “A bíblia comentada”, para comentar uma questão que foi lançada em um comentário.

O leitor Carlos falou que não podemos interpretar a bíblia literalmente com os olhos de hoje, por se tratar de um livro muito antigo, então o que está escrito lá não pode ser analisado sob um panorama puramente atual. Isso é completamento correto.

No entanto, não é assim que a bíblia é geralmente interpretada, e sites como o já mencionado Skeptic’s Annotated Bible ou The Brick Testament (que é do mesmo autor) contribuem justamente para essa visão mais crítica e analítica da Bíblia, que é justamente o que é desejável. (Na verdade, precisamos dessa visão crítica em muitos outros aspectos, mas isso é outra história.)

A visão da Igreja, por exemplo, não é essa; a bíblia é a “palavra de deus em linguagem humana” e é “inerrável”; em nenhum momento sustenta que apenas partes dela (as partes boas) devem ser consideradas ou que algumas partes já não fazem mais sentido e devem ser desconsideradas. É verdade (felizmente!) que a Igreja não sai por aí defendendo que pratiquemos alguns ensinamentos de moral questionável da bíblia, como aquele de matar nossos inimigos ou apedrejar quem blasfema o nome do senhor, mas ela também não faz nenhum esforço para lançar uma “nova edição” da bíblia removendo as partes que são apenas curiosidades históricas de um tempo muito mais violento.

Além disso, e mais sério, é extremamente comum vermos pessoas dizendo que seu livro favorito é a bíblia, ou que é um livro cheio de bons exemplos, que é inspiracional, etc., mas nunca vi alguém fazendo a observação que isso só vale para algumas partes e que outras já não se aplicam mais nos dias de hoje e que devem ser desconsideradas. Talvez porque nem sequer saibam dessas partes que a Igreja prefere não comentar muito. Não sei como são as estatísticas aqui no Brasil (se alguém souber, deixe um comentário), mas pelo menos nos EUA poucos realmente lêem a bíblia, mas mesmo entre aqueles que já leram é difícil encontrar pessoas que tenham justamente essa visão de que nem tudo deve ser considerado da mesma forma.

Marta vs. Kassab

Todos já devem saber da campanha da Marta Suplicy que lançou questões sobre a vida pessoal do adversário Kassab (perguntando se ele era casado e se tinha filhos), e, dependendo do ponto de vista, levantando sutilmente questões sobre a sexualidade dele. (Se você esteve em viagem fora deste planeta nos últimos dias, veja esta reportagem ou procure em qualquer site de notícias.)

Não tem muito o que comentar sobre a atitude da Marta (ou de sua equipe), é o tipo de atitude baixa que é normal em campanhas acirradas, sobretudo do lado que está perdendo.

O que é mais crítico é o eleitorado se influenciar por esse tipo de questão. Só porque uma pessoa não é casada não pode ser um bom prefeito? Ou ainda que ele fosse homossexual, não poderia ser eleito por isso?

A bíblia comentada

No site Skeptic’s Annotated Bible há o texto completo do livro de histórias mais popular do mundoda bíblia (antigo e novo testamento), com os mais diversos tipos de anotações e comentários.

Todas as passagens que falam de temas como sexo, violência, mulheres ou homossexualismo, por exemplo, estão destacadas visualmente (cada categoria usa uma cor) para consulta rápida. Há também anotações de partes consideradas absurdas ou contraditórias, como a passagem em Gênesis 1:27 que diz que o homem e a mulher foram criados ao mesmo tempo (“So God created man in his own image, in the image of God created he him; male and female created he them.”) e de Gênesis 2:18–2, que diz que primeiro deus criou o homem e depois a mulher de uma costela do homem (“And the LORD God said, It is not good that the man should be alone; I will make him an help meet for him. [...] And the LORD God caused a deep sleep to fall upon Adam, and he slept: and he took one of his ribs, and closed up the flesh instead thereof; And the rib, which the LORD God had taken from man, made he a woman, and brought her unto the man.”).

No mesmo site há também o Alcorão e o Livro de Mórmon comentados.

Linha divisória

PS: Uma “quase continuação” desse post foi escrita em “Como interpretar a bíblia?”.

Cotas? Não, obrigado

É certo que os negros (e pardos, e amarelos, e todos os outros) devem ter os mesmos direitos e condições de entrar em uma faculdade (e qualquer outro direito) que os brancos, e é certo também que, por uma série de motivos, eles não têm as mesmas condições. No entanto, não é simplesmente facilitando a entrada deles na faculdade (separando algumas vagas para eles, com “cotas”) que esse problema é resolvido.

É necessário olhar para as raízes do problema. Correndo o risco de fazer uma simplicação excessiva, podemos dizer que os negros têm menos chances de entrar na faculdade pois tiveram um ensino de pior qualidade. E tiveram esse ensino que deixa muito a desejar pois não tinham condições de arcar com um colégio melhor. Isso é um problema de desigualdade social (cujas causas são várias, e que existe há muito tempo), e é isso que deve ser consertado, uma vez que só enfrentando a causa do problema ele será eliminado. Simplesmente garantir a entrada dos negros no ensino superior não é suficiente: em primeiro lugar, não adianta colocar alguém numa faculdade e depois esta pessoa não conseguir acompanhar o curso por causa do ensino de baixa qualidade ao qual teve que se submeter por falta de opção. Além disso, mesmo que a pessoa conclua a faculdade, isso não garante um emprego.

Mesmo quando alguém que não teria entrado sem as cotas chega a se formar e consegue um bom emprego, temos apenas a “solução” do problema dessa pessoa e de sua família. Provavelmente ele vai conseguir garantir condições a seus filhos de terem um ensino de qualidade e estes, por sua vez, poderão cursar uma faculdade (sem depender realmente das cotas), mas isso não vai alterar a situação de tantas outras pessoas numa condição semelhante. O problema da desigualdade social e do ensino ruim continua lá, o máximo que foi feito é diminuir seus efeitos sobre um pequeno número de pessoas.

Além disso, cotas são uma maneira de discriminação. Reservando vagas para negros, o governo está apenas reforçando a idéia de que a cor da pele faz alguma diferença, e que as pessoas devem ser tratadas de uma maneira diferente em função disso. Mesmo que essa discriminação ajude os negros, ao implantar cotas, é como se o governo dissesse “eles não conseguiriam entrar na faculdade sozinhos, então vamos dar uma ajuda”. Quando o que deveria fazer é resolver o porquê de não conseguirem entrar na faculdade, para desta forma garantir que tenham as mesmas condições que qualquer outro.

Por causa disso tudo, vejo as cotas como um remendo, e muito mal feito. É apenas uma atitude que serve para causar uma boa impressão, fazendo as pessoas pensarem “veja que ação nobre, o governo ajuda os negros”. Mas isso está mais para uma esmola: pode parecer a princípio uma boa atitude, e pode até resolver alguns problemas imediatos, mas os efeitos da ajuda são muito pequenos, e essa atitude não é de nenhuma maneira uma solução definitiva e não contribui para a solução do problema, já que simplesmente garantir a entrada de negros na faculdade não contribui para uma melhor distribuição de renda, nem para a melhoria do ensino público.

A solução desse problema é, naturalmente, muito difícil e demorada. O que precisamos realmente é permitir a integração dos negros na sociedade, e eliminar ao máximo o preconceito existente contra eles, além de garantir um ensino básico de qualidade para todos. Mas a atitude atual não contribui particularmente para isso, e de certa forma até prejudica a solução de longo prazo ao reforçar a idéia que há uma distinção entre negros e brancos, que é justamente o oposto do que deve acontecer! A verdadeira solução, por ser de longo prazo, não interessa aos governantes, que desejam sempre “soluções” (ou algo que promova a ilusão de ser uma solução) de curto prazo, pois é isso que garante votos. Ninguém vai lembrar de um presidente, governador, prefeito, etc. que iniciou um processo que, ao longo de 50 anos gradualmente introduziu mudanças na educação, cujos efeitos só podem ser vistos fazendo uma comparação com a situação de muito tempo atrás; mas todos lembram daquele que “ajuda os pobres” dando os mais diversos tipos de auxílio, ou “ajuda os negros” permitindo que eles entrem na faculdade, mas pouco se importando se conseguirão continuar o curso, afinal tudo o que importa é fazer bonito.

Ganhadores do Ig Nobel 2008

O prêmio Ig Nobel é dado anualmente às descobertas científicas mais estranhas do ano. Segundo os organizadores, é dado às descobertas que primeiro fazendo você rir, e depois fazem você pensar. Esses foram os ganhadores do prêmio de 2008:

  • Arqueologia: Astolfo Gomes de Mello Araújo e José Carlos Marcelino (USP, Brasil), por demonstrarem que os tatus podem misturar os vestígios em um sítio arqueológico.
  • Biologia: Marie-Christine Cadiergues, Christel Joubert e Michel Franc (Ecole Nationale Veterinaire de Toulouse, França), pela descoberta de que as pulgas que vivem nos cães pulam mais alto do que as que vivem nos gatos.
  • Química: Sheree Umpierre (University of Puerto Rico, EUA), Joseph Hill (Fertility Centers of New England, EUA) e Deborah Anderson (Boston University School of Medicine and Harvard Medical School, EUA), por constatarem que a Coca-Cola é um espermicida eficiente, e C.Y. Hong, C.C. Shieh, P. Wu e B.N. Chiang (Taipei Medical University, Taiwan) por provarem o contrário.
  • Ciências cognitivas: Toshiyuki Nakagaki (Hokkaido University, Japão), Hiroyasu Yamada (Japão), Ryo Kobayashi (Hiroshima University, Japão), Atsushi Tero (Presto JST, Japão), Akio Ishiguro (Tohoku University, Japão) e Ágota Tóth (Akio Ishiguro of Tohoku University, Hungria), por descobrirem que os micetozoários podem resolver problemas e quebra-cabeças.
  • Economia: Geoffrey Miller, Joshua Tyber e Brent Jordan (University of New Mexico, EUA), por descobrirem que strippers ganham mais dinheiro nos períodos de fertilidade.
  • Literatura: David Sims (Cass Business School, Reino Unido), por seu estudo “You Bastard: A Narrative Exploration of the Experience of Indignation within Organizations” (Seu idiota: investigação da experiência da indignação dentro das organizações).
  • Medicina: Dan Ariely (Duke University, EUA), por demonstrar que medicamentos falsos caros são mais eficientes do que os medicamentos falsos baratos.
  • Nutrição: Massimiliano Zampini (University of Trento, Itália) e Charles Spence (Oxford University, Reino Unido), por modificar eletronicamente o som de uma batata frita “chips” para fazer com que a pessoa que mastiga acredite que ela é mais crocante e fresca do que realmente é.
  • Paz: O Comitê Federal Suíço de Ética em Biotecnologia Não-humana e os cidadãos suíços, por adotarem o princípio legal de que as plantas têm dignidade.
  • Física: Dorian Raymer (Scripps Institution of Oceanography, EUA) e Douglas Smith (University of California, EUA), por provarem que montes de corda ou cabelo inevitavelmente embolam.

No site oficial há as referências para os artigos contendo as pesquisas.

Pais, não batizem seus filhos

Pelo menos enquanto eles forem recém-nascidos (ou pouco mais que isso), pois dessa forma vocês estarão impondo a eles uma religião que talvez eles não queiram seguir, sem dar a eles a chance de decidir isso.

Deixem que seus filhos, quando crescerem um pouco, decidam a religião que preferem seguir, e se então eles quiserem ser batizados, façam o que for necessário. Mas se eles optarem por alguma outra coisa, suportem-nos nesta outra escolha. Da mesma maneira, deixe que eles decidam se querem ir à catequese ou não, afinal eles têm o direito de não querer seguir aquela religião.

Vocês podem expor as idéias da sua religião se quiserem, apenas deixem claro que, em primeiro lugar, se trata de uma crença sem fundamento científico, e que assim como existe esta crença, existem outras equivalentes. Mas incentivem seus filhos a buscar por eles mesmos pela religião que lhes agradar mais, se for o caso. Incentivem-nos também a procurar pelo outro lado, ou seja, a ver o que outras pessoas têm a dizer com base em métodos científicos verificáveis, para que eles podam decidir por eles mesmos no que acreditar.

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