Você acredita nisso?
Quase sempre, ao nos depararmos com assuntos pseudocientíficos, encontramos o uso da idéia de “acreditar”. Pessoas dizem que acreditam (ou que não acreditam) em espíritos, em fenômemos paranormais, na astrologia, em maneiras de prever o futuro, na homeopatia, etc.
Essa é uma maneira errada de lidar com isso. O fato de acreditar ou não em algo é totalmente irrelevante para a sua existência (ou inexistência) ou sua validade. Supondo que existissem fenômenos paranormais (ou espíritos, ou o monstro do lago Ness, etc.), o fato de eu, você, o papa, o Lula, ou qualquer outra pessoa acreditar ou não neles em nada vai alterar essa existência, nem vai torná-la mais (ou menos) plausível.
O mesmo vale com relação a coisas cuja validade é questionada (e não sua existência), por exemplo a homeopatia ou outras “curas alternativas”. Geralmente os defensores da homeopatia dizem que “acreditam” nela. É bom para eles isso, mas irrelevante. Se a homeopatia realmente funciona (qualquer que seja o motivo ainda não compreendido pela ciência), ela vai funcionar independentemente de o paciente acreditar nela ou não. (Uma observação necessária aqui é que neste caso em particular, acreditar no tratamento pode ajudar na sua eficácia, mas isso é válido tanto para tratamentos “tradicionais” quanto “alternativos”, tanto para tratamentos comprovados quanto os de validade duvidosa.)
A mesma coisa vale para o “não acreditar”. Se algo existe ou é válido, o fato de não acreditar nele em nada influencia na sua existência ou validade. Alguém pode até dizer que não acredita na lei da gravidade, mas os efeitos dela vão continuar valendo para aquela pessoa. Ou alguém pode dizer que não acredita na dengue, mas pessoas vão continuar ficando doentes, e algumas até morrendo disso.
Interessante que meu nome foi preenchido automaticamente… Será que há cookies me rastreando?
Bom texto.
Um corolário disso seria que os ateus apenas acreditam que nada existe além das 4 (ou 11?) dimensões do nosso mundo físico e palpável, logo são irrelevantes.
Se, como você diz, ateus não acreditam em nada além de X dimensões palpáveis, é uma opção deles. Mas isso não torna as outras coisas que não se encaixam ali irrelevantes, pelo contrário, em nada as afeta.
Esse texto me fez lembrar de uma passagem do Sagan, no livro Cosmos:
“Freqüentemente me perguntam se eu acho que exista inteligência extraterrestre. Eu dou os argumentos padrões – há muitos lugares lá fora, e uso a palavra bilhões, e assim por diante. E aí digo que seria incrível para mim se não houver uma inteligência extraterrestre, mas naturalmente não há até agora nenhuma evidência forte a favor dela. E aí me perguntam então: “É, mas o que você acha de verdade?” E eu digo, “Acabei de dizer o que realmente acho.” “OK, mas o que sua intuição diz?”
Mas eu tento não pensar com a intuição. Não há problema em adiar o julgamento até que as evidências cheguem.”
O fato de acreditar ou não é relevante no tratamento e prioridade que a sociedade vai dar ao assunto.
Acaba sendo relevante sim. Mas não deveria ser; o fato de a Ana Maria Braga¹ acreditar ou não em algo não deveria ser considerado na hora que se decide lidar com o assunto, ou na forma como vai ser tratado.
Mas o mais importante, e o que quis dizer, é que o fato de eu, você, ou a Ana Maria Braga¹ acreditarem em algo não torna essa coisa verdadeira, ela seria mesmo que ninguém acreditasse. Ou se for falsa, não é alguém acreditar nela que a torna verdadeira.
Ou seja, perguntas do tipo “você acredita em espíritos²?” não fazem sentido: ou eles existem ou não.
¹ Só um exemplo, se quiser troque por qualquer outra pessoa.
² Ou qualquer outra do estilo.