Anencefalia

Eu queria escrever alguma coisa sobre esse debate quanto à legalização ou não do aborto de fetos anencéfalos, mas devo confessar que é difícil, pois para mim é tão óbvio que nesses casos o aborto deve ser permitido para quem quiser, que eu não consigo pensar em argumentos contra essa posição para comentar. Eu até entendo que o aborto de forma geral tem alguns pontos que merecem ser discutidos, mas esse caso?

Uma outra coisa que é óbvia, mas que ainda assim é interessante que seja reforçada, é que, caso seja aprovado, existirá a possibilidade de efetuar o aborto. Nenhuma mulher será obrigada a fazer o aborto, apenas poderá, caso assim deseje. Se ela quiser carregar um feto por nove meses, dar à luz, e vê-lo morrer logo em seguida, ela poderá fazer isso, e não precisará fazer nada de especial. Mas as que acharem essa gravidez sem futuro e quiserem interrompê-la deverão solicitar a autorização para fazê-lo. Não haverá nenhum prejuízo ou mudança no procedimento para quem quiser dar à luz o feto anencéfalo, só quem não quiser tal coisa é que terá que agir diferente.

Eu até tentei procurar textos contra o aborto de fetos anencéfalos. Eles existem, é claro, mas mesmo quando eles tratam desse caso, acabam sendo textos contra o aborto de uma forma geral, como este ou este. Os argumentos ali poderiam ser usados mesmo no caso de um debate sobre o aborto em qualquer caso.

Em muitos casos a argumentação anti-aborto acaba envolvendo deus, em coisas como “deus diz que a vida é sagrada”, “Para deus todos somos seres humanos”, etc. (Nunca é especificado de qual deus se trata, mas podemos assumir que se trata do deus da religião cristã; no mínimo pelo fato de ser a religião predominante no Brasil.) Embora qualquer pessoa tenha o direito de usar esse tipo de argumento para justificar sua própria escolha em continuar ou não a gravidez de um feto anencéfelo, esse argumento não pode ser usado para tentar tirar o direito de outras pessoas que queiram fazer essa decisão, afinal essas outras pessoas podem perfeitamente acreditar num outro deus e numa doutrina que permita a opção pessoal de continuar ou não a gravidez. E se o bom senso não basta para considerar isso válido, temos a constituição federal, que diz que nosso estado é laico, ou seja, não associado a nenhuma religião. Desta forma, qualquer argumento que envolva “deus” ou “religião” simplesmente não pode ser considerado para defender ou contestar o aborto, nesse caso ou em qualquer outro.

Muita gente defende que o aborto é tirar uma vida. Eu discordo. Um feto em gestação não é uma vida, ele se tornará uma vida a partir do momento que a gestação terminar com sucesso e ele nascer. Desta forma o aborto não é tirar uma vida, é no máximo tirar uma potencial vida. (Esse argumento não é específico para esse caso, é verdade, mas acaba sendo necessário mencionar esse argumento.) De qualquer forma, ainda que o feto seja considerado já uma vida, que potencial há neste caso para essa vida? Caso o feto não morra no parto, viverá em geral algumas horas apenas. Novamente, que “vida” é essa? As pessoas que “defendem a vida” se preocupam muito com isso, mas parecem se limitar a uma visão muito simplista de “vida”, basicamente estar respirando é vida, mas não se importam com a qualidade dessa vida, nem com a potencial degradação na vida da mãe em suportar uma gravidez que não trará futuro e que não cumprirá o que se espera de uma gravidez: gerar uma vida que dure o tempo que tiver que durar, mas que não tenha a morte já prevista com antecedência e num curtíssimo prazo.

Estou interessado em particular em argumentos contra o aborto neste caso particular. Argumentos genéricos seriam melhor deixados para uma outra discussão mais geral sobre esse assunto um tanto quanto polêmico. Argumentos que se baseiam em religião não serão considerados.

GPS e a relatividade

Se você achava que a Teoria da Relatividade era “apenas uma teoria” ou que ela não afetava em nada nossas vidas, prepare-se para mudar de opinião.

O GPS (Global Positioning System) é um sistema que usa um conjunto de satélites em órbita da Terra que ficam continuamente transmitindo um sinal que inclui o horário de envio. Um receptor GPS (que atualmente pode ser encontrado até em celuluares) capta esses sinais. Como os sinais viajam à velocidade da luz, sabendo o tempo que eles levaram até serem recebidos, é possível determinar a distância que separa o satélite do receptor. Com a distância de três satélites e a informação sobre a posição deles (que pode ser facilmente obtida já que as órbitas são determinadas e conhecidas), um processo chamado trilateração permite determinar o ponto onde se situa o receptor GPS, com uma precisão de metros ou até mesmo centímetros. Para mais detalhes, veja este link, que descreve algumas complicações adicionais.

A Teoria da Relatividade Geral afirma que um relógio num campo gravitacional mais forte marca mais devagar que um relógio num campo gravitacional mais fraco. Como os satélites orbitam a Terra a uma distância de 20.000 km, estão num campo gravitacional mais fraco, e isso faz com que, com relação a um relógio na superfície da Terra, os relógios nos satélites ganhem 45 μs/dia (1 μs = 0,000001 s).

Já a Teoria da Relatividade Restrita afirma que um relógio em movimento parece marcar mais devagar que um relógio parado, e quanto maior a velocidade do relógio em movimento, mais devagar ele parece marcar. Como os satélites estão se deslocando a aproximadamente 4 km/s em relação a um observador parado na superfície, feitos os cálculos conclui-se que os satélites perdem 7 μs/dia.

Considerando os dois efeitos juntos, os relógios dos satélites parecem marcar mais rápido que relógios na terra a uma taxa de 38 μs por dia. Isso é muito pouco, mas como os sinais viajam à velocidade da luz (300.000 km/s), é necessária uma precisão muito grande nos relógios, da ordem de um nanosegudo. E 38 μs são 38.000 nanosegundos! Isso seria suficiente para introduzir erros da ordem de 10 km/dia no posicionamento. No entanto, os relógios dos satélites foram programados para levar em consideração os efeitos da relatividade e compensá-los, e é graças a isso que o sistema funciona.

Referências: 1, 2, 3

Créditos: Ouvi sobre isso a primeira vez neste podcast, e achei tão interessante que decidi pesquisar e postar aqui.

Nota: Algumas pessoas afirmam que isso seria apenas um mito. No entanto, lendo esta discussão, penso que aquela explicação (em que os efeitos da relatividade não seriam importantes) é incorreta, uma vez que os cálculos do GPS não levam em conta apenas os relógios dos satélites, mas também o relógio do receptor, tanto que é necessário o sinal de um quarto satélite para poder obter a posição e o tempo.

Tim Maia

Não sou fã da música dele, mas as frases são geniais:

Não fumo, não bebo e não cheiro. Só minto um pouco.

Este país não pode dar certo. Aqui prostituta se apaixona, cafetão tem ciúme e traficante se vicia.

Dizem que maconha vicia. Eu acho que é mentira. Tem um amigo meu que fuma há 25 anos e até hoje não é viciado.

Que beleza, Tim Maia pelo preço de uma grama. (referindo-se ao preço do ingresso para um show seu)

Passou de branco, preto é. Não existe este negócio de mulato. Mulato pra mim é cor de mula.

Com os acordes que tem em uma música do Tom Jobim dá pra fazer umas cinqüenta.

Tudo é tudo e nada é nada.

A diferença entre eu e o Dicró é que no meu show todo mundo vai e eu não vou; no dele, ele vai, mas não vai ninguém.

Eu quero parabenizar o presidente Collor, que está fazendo a campanha ‘Diga Não às Drogas’. Eu acho que é isso mesmo, deixa pra quem gosta, porque já está escasso nas bocas!

O mundo só será bom no dia que todo o dinheiro acabar, mas que não me falte nenhum enquanto isso não acontece.

Fiz uma dieta rigorosa, cortei álcool, gorduras e açúcar. Em duas semanas perdi 14 dias.

Quanto exagero

Policial pode ser punido por dançar em serviço

Tudo bem, a atitude pode não ser exatamente a mais apropriada, ainda mais para um policial. Mas foi uma atitude inofensiva e sem danos para ninguém. Ele mereceria talvez uma repreensão, mas não uma advertência formal ou uma punição maior. É hipocrisia dizer que o policial não pode ter uns minutos de descontração no trabalho; todos de vez em quando fazemos algo assim (não necessariamente dançando, mas de alguma forma descontraindo), e isso justamente faz o trabalho ficar menos monótono e mais tolerável.

Pensar um pouco às vezes ajuda

Mapa mostrando um bloqueio mal feito

Esse mapa mostra uma situação que ocorreu hoje. Por causa de alguma coisa que impedia o trânsito no trecho marcado em vermelho (acabei não descobrindo o que era), foi feito um bloqueio pela polícia de trânsito. Esse bloqueio foi feito nos dois pontos marcados em preto, que isolam a menor área em volta do problema.

Até aqui tudo bem, mas devido à localização estratégica do bloqueio, alguém vindo pela rua João Gava em direção à rua Mateus Leme ou rua prof. Nilo Brandão teria que entrar na rua logo antes do bloqueio (a que faz uma curva), fazer aquela volta e só então desviar pela rua Nilo Peçanha. Se o bloqueio fosse feito uma quadra antes (no ponto marcado em verde), o motorista tomaria o desvio diretamente. É verdade que ia ser necessário fazer um outro bloqueio em outro ponto, então talvez a melhor solução fosse ter um aviso no ponto destacado em verde que a rua está interditada à frente, caso o motorista deseje continuar deve desviar naquele ponto (para não ter que voltar depois).

Isso me lembrou de uma outra situação muito parecida que ocorreu há algum tempo:

Outro mapa mostrando um bloqueio mal feito.

Novamente, por causa de uma árvore caída no trecho em vermelho, foi feito um bloqueio nos dois pontos em preto. Mas para alguém que segue pela rua des. Hugo Simas, a maneira de evitar aquele trecho é pela rua sta. Cecília. Mas para pegar essa rua, o motorista que não sabia do bloqueio tem que retornar (até o ponto marcado em verde) ao se deparar com o ponto de bloqueio em preto. Aqui também, se o bloqueio fosse feito um pouco antes (ou se houvesse um aviso ali, para não dificultar a passagem de quem quer acesso a outras ruas), seria evitada uma pequena volta.

É verdade que os desvios são mínimos e vão adicionar só uns 50 metros e 30 segundos no percurso, mas ainda assim facilitaria a vida se os bloqueios fossem feitos no ponto mais oportuno, e não no ponto mais próximo.

Precisamos de tudo isso?

Aproveitando o assunto do post anterior, confesso que me incomoda um pouco toda a importância que é dada às eleições nos EUA. Acho perfeitamente compreensível e válido que sejam noticiadas com algum destaque, uma vez que, gostando ou não, não podemos negar que os EUA são o país mais influente em todo o mundo no momento. Mas as eleições lá estão sendo mais noticiadas que as eleições que em breve vão ocorrer aqui.

É verdade que as eleições desse ano são apenas municipais, e isso limita um pouco sua cobertura (exceto em algumas notícias de muita relevância, não faz muito sentido noticiar num jornal de âmbito nacional informações sobre candidatos a prefeito), mas a cobertura dada às eleições dos EUA é igual, se não maior, à dada nas últimas eleições para presidente aqui. E isso já vem sendo feito há algum tempo, lembro que cada prévia em cada estado já recebia uma atenção enorme, como se fosse a própria eleição. Será que não estamos dando importância demais a isso?

Por outro lado, ao menos uma coisa é interessante nessa cobertura: a campanha lá é muito mais divertida, pois eles não têm uma lei tão paternalista como a nossa, os candidatos estão constantemente atacando os outros. E isso é muito mais divertido que uma campanha politicamente correta.

Agora sim

Sarah Palin teria recebido verba de viagem sem sair de casa

Finalmente alguma denúncia que vale a pena ser investigada e, sobretudo, que justifica conseqüências no desempenho dos republicanos nas eleições. Porque o “escândalo” anterior é uma irrelevância total, só americanos mesmo para se preocupar com isso e deixarem se influenciar por isso na olha de escolher o candidato.

A Chaleira de Russell

Essa alegoria proposta pelo filósofo Bertrand Russell aparece no artigo “Is There A God?”:

Se eu sugerisse que entre a Terra e Marte existe uma chaleira de porcelana girando ao redor do Sol em uma órbita elíptica, ninguém poderia provar que essa afirmação é falsa desde que eu fosse cuidadoso em dizer que a chaleira é muito pequena para ser observada até mesmo pelos nossos telescópios mais potentes. Mas se eu continuasse e dissesse que, uma vez que minha afirmação não pode ser provada como falsa, é uma presunção intolerável da parte do ser humano duvidar dela, certamente considerariam, com razão, que estou falando bobagens. Se, por outro lado, a existência de tal chaleira fosse afirmada em livros antigos, ensinada como a verdade sagrada todos os domingos, e gradualmente inserida na menta das crianças na escola, hesitação em acreditar na sua existência seria vista como um sinal de excentricidade e chamaria a atenção para aquele que duvida de um psiquiatra numa era esclarecida, ou de um inquisidor em tempos antigos.

Minha proposta para os candidatos com “ficha suja”

Por ocasião das eleições para ali babáprefeito e os quarenta ladrõesvereadores, surgiu o debate sobre impedir ou não candidatos que respondem a processos de se candidatar. Tecnicamente, é ilegal fazê-lo, pois só após a conclusão do processo e todos seus intermináveis recursos é que alguém pode ser tratado de forma diferente por causa da condenação. Por outro lado, políticos são diferentes do cidadão comum por terem uma responsabilidade muito maior de serem os representantes do povo, então faz sentido que precisem ter uma reputação a prova de qualquer suspeita, mesmo que isso signifique não ter nenhum processo em andamento, ainda que não concluído.

No entanto, não concordo com impedir totalmente a candidatura de pessoas respondendo a processos. Deixe-os se candidatar. Mas a meu ver, a posse deve ser impedida (ou melhor, suspensa) até a conclusão do processo. Se for absolvido, o candidato então toma posse e permanece no cargo pelo tempo que restar do mandato. Se for condenado, perde em definitivo o direito àquela vaga e cumpre o que for estipulado na sentença.

Poderá acontecer de, graças à morosidade da nossa justiça, um processo não ser concluído a tempo, só saindo a sentença final absolvendo o candidato após o fim do mandato a que ele teria direito. Seria uma pena, mas nada poderia ser feito nesse caso. Só restaria ao candidato tentar se eleger de novo, agora sem o processo nas costas. Quem sabe isso traga um segundo benefício: os políticos poderiam propor projetos para agilizar a justiça, eliminando esse problema.

Você acredita nisso?

Quase sempre, ao nos depararmos com assuntos pseudocientíficos, encontramos o uso da idéia de “acreditar”. Pessoas dizem que acreditam (ou que não acreditam) em espíritos, em fenômemos paranormais, na astrologia, em maneiras de prever o futuro, na homeopatia, etc.

Essa é uma maneira errada de lidar com isso. O fato de acreditar ou não em algo é totalmente irrelevante para a sua existência (ou inexistência) ou sua validade. Supondo que existissem fenômenos paranormais (ou espíritos, ou o monstro do lago Ness, etc.), o fato de eu, você, o papa, o Lula, ou qualquer outra pessoa acreditar ou não neles em nada vai alterar essa existência, nem vai torná-la mais (ou menos) plausível.

O mesmo vale com relação a coisas cuja validade é questionada (e não sua existência), por exemplo a homeopatia ou outras “curas alternativas”. Geralmente os defensores da homeopatia dizem que “acreditam” nela. É bom para eles isso, mas irrelevante. Se a homeopatia realmente funciona (qualquer que seja o motivo ainda não compreendido pela ciência), ela vai funcionar independentemente de o paciente acreditar nela ou não. (Uma observação necessária aqui é que neste caso em particular, acreditar no tratamento pode ajudar na sua eficácia, mas isso é válido tanto para tratamentos “tradicionais” quanto “alternativos”, tanto para tratamentos comprovados quanto os de validade duvidosa.)

A mesma coisa vale para o “não acreditar”. Se algo existe ou é válido, o fato de não acreditar nele em nada influencia na sua existência ou validade. Alguém pode até dizer que não acredita na lei da gravidade, mas os efeitos dela vão continuar valendo para aquela pessoa. Ou alguém pode dizer que não acredita na dengue, mas pessoas vão continuar ficando doentes, e algumas até morrendo disso.

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